Oh, look at the time…. The big hand says Fuck, and the little hand says Off… Good thing there's not a second hand. I'm goin' in.

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Suicide Store(y) – Um conto de Natal

Está ficando tarde. Acho que hoje não irá aparecer nenhum cliente aqui na loja. É véspera de natal, já são quase onze horas, todos devem estar com suas famílias ou amigos se preparando para a ceia ou seja lá o que tiverem planejado.

Todas as outras lojas aqui do shopping já fecharam. Até a praça de alimentação. Ano passado tive clientes inesperados na última hora, mas não era tão tarde quanto é agora.

Com sorte talvez apareça alguém. Um cliente no natal talvez mostre o quanto me importo com esse emprego e eu receba um aumento, não seria nada mal um aumento. Eu poderia comprar um computador melhor, um notebook de preferência, mas com placa de vídeo, sai mais caro mas vale a pena. Um notebook me ajudaria nas horas de ócio aqui da loja, não é todo dia que aparece alguém, na falta de outra coisa para matar o jeito é matar o tempo com a internet do celular, mas cansa depois de um pouco.

Estou preocupado de não ter como ir embora hoje depois de fechar a loja, tem um ponto de táxi quase em frente a entrada lateral do shopping mas não sei se terá alguém de plantão tão tarde. Ir embora a pé de madrugada é pedir para ser assaltado por algum viciado em crack. Dormir aqui não é uma opção, acredito que não exista ninguém melhor para esse meu serviço, mas passar a noite é contra as regras, melhor não discutir.

Espere um pouco… o que temos aqui?!

O monitor está piscando, alguém está no elevador. O que poucas pessoas sabem é que aqui da loja tenho acesso as câmeras de segurança. Todas. Isso ajuda a ver que tipo de cliente está por vir. No momento é um sujeitinho esquisito, provavelmente bêbado. Ele é tão alto quanto eu, mas bem mais gordo. O abominável homem das neves precisa dos meus serviços.

A porta da frente se abre sozinha e o homem entra, mas pára no segundo passo. Talvez tenha se arrependido ao me ver: uma pessoa com cara de zumbi, o cabelo sem cortar e muito menos pentear, inteiro de preto, debruçado no balcão e, para piorar tudo, com uma touquinha de papai noel. Não é o tipo de figura que inspira confiança, creio eu. Mas talvez o desespero deste gordo seja maior do que o bom senso, pois ele continuou se aproximando após a pausa inicial e, meio sem graça, me mostrou o cartão da loja que é enviado por correio, única forma de entrar aqui já que ninguém sabe o endereço.

Talvez soe estranho eu dizer que ninguém conhece o endereço daqui, uma vez que estamos em um dos shoppings mais movimentados da cidade. Não vou dizer qual é o shopping, claro, nem mesmo o nome da cidade eu irei dizer. Não precisamos de muita publicidade, quem realmente precisa e tem dinheiro suficiente para bancar sempre irá chegar até aqui.

O cartão além das coordenadas da loja, possui a combinação de botões que devem ser pressionados para que o elevador traga o cliente até aqui, caso não saiba a senha a pessoa somente terá acesso ao último andar oficial, mas nossa loja está acima disso. Literalmente. O úlimo andar inteiro faz parte da loja, custaria uma fortuna alugar um espaço desse tamanho se o prédio todo do shopping já não pertencesse ao dono aqui da loja.

Não sei a data exata, mas a loja foi aberta há mais de vinte anos, dos quais dez eu fiz parte, comecei aqui com quinze e não saí mais. Antes disso não sei quem trabalhava ou onde eram as instalações físicas, mas com certeza já lucrava muito.

Temos uma média de 190 clientes por ano segundo nossos registros, o que soma 3.800 satisfeitos consumidores até agora. É um prazer atender tantas solicitações assim, além da enorme quantia de dinheiro, há uma grande satisfação em ajudar a resolver os problemas de tantas pessoas.

Aqui em minha frente está mais uma pessoa que irá fazer uso de nossos serviços. Caso não fique tudo como esperava, o dinheiro do pagamento é devolvido na íntegra. Mais de três mil pessoas e ninguém nunca reclamou. Acho que não vai ser hoje que terei esse problema.

O gordo me conta um pouco de sua vida em uma conversa, essa é a parte mais chata, ouvir as ladainhas do freguês. Parece que a esposa do gordo o traiu pouco mais de um mês atrás, bem feito, ele merece coisa pior só por ter esse mau cheiro insuportável. Ele raclama mais um tempo e me pergunta se sou capaz de ajudá-lo. Essa pergunta me incomoda muito, mas finjo que está tudo bem. Pergunto como ele irá pagar. Vai transferir da conta da empresa em que trabalha para a conta da loja. Não sei direito o mecanismo, mas ao transferir dinheiro on-line aqui, a conta de destino fica irrastreável, o que é muito útil com pessoas tipo esse gordo que irá obviamente roubar o patrão.

Ninguém vai saber para onde o dinheiro foi. Preparo tudo para a transferência, só falta combinar o valor. A tarifa básica é de 35.000, o que dá facilmente 20.000 de lucro considerando os gastos todos.

O gordo volta a falar, diz que tem um seguro de vida e os beneficiários são a mãe e a irmã. Ele não possui bens móveis ou imóveis, portanto não deixará nada para a esposa vagabunda. Para que a perícia aprove a cobertura do seguro tudo tem que parecer um acidente, seguradoras não dão dinheiro para as famílias de suicidas. Já que tudo vai precisar ser mascarado e o corpo precisa ser encontrado, o valor é mais alto, o dobro considerando tamanho risco.

A transferência do dinheiro é feita na hora, a empresa felizmente tem saldo suficiente para cobrir o valor. Peço para o gordo se sentar em uma cadeira em uma das salas do fundo da loja, vale mencionar que uma sala não tem acesso a outra e todas são acusticamente isoladas. Mas isso tudo é desnecessário, já que só é permitida a entrada de um cliente de cada vez.

A cadeira é confortável e tem fivelas para prender a pessoa que estiver sentada. As tiras são de couro, mas acolchoadas, então prendem qualquer um sem machucar e – o mais importante – sem deixar marcas que denunciem que a pessoa estava amarrada antes de morrer.

Aviso que não irei parar depois que começar e pergunto se realmente devo prosseguir. A resposta é afirmativa. Ele parece seguro, decidido. Todos ficam assim antes de começar, mas mudam. Pena que aí já é tarde. Nos dez anos em que estive aqui aprendi várias coisas, mas a principal é que os mais ou menos dois mil que eu atendi pessoalmente, todos sem exceção, se arrependeram no final das contas.

Não importa o quanto a pessoa esteja deprimida, e já vi casos que assustariam qualquer um (hoje já acostumei), na hora em que vão morrer todos ficam com medo e percebem o quanto são ridículos por pensarem em suicídio.

Não sei a impressão que você está tendo nesse momento, mas não sou um assassino (apesar de ter matado muita gente). Eu estou dando uma assistência final para algumas das muitas pessoas que querem morrer. Milhões de pessoas cogitam suicídio diariamente, alguns seguem em frente, outros não. Existem aqueles que tentam e fracassam, os piores tipos ao meu ver. Mas alguns, poucos considerando a quantidade de pessoas querendo morrer, tem acesso à loja mesmo tendo de desembolsar quantias altas de dinheiro. O que vendemos não é um simples suicídio, é uma forma de arte. São mortes das formas mais estranhas e únicas possíveis, um atendimento exclusivo e com o maior cuidado e atenção. O tratamento do corpo após a morte também é responsabilidade nossa, enviamos para a família, sumimos com os restos mortais, moemos e fazemos hamburguer. O que o cliente desejar é feito após o pagamento do serviço. Até mesmo as cartas de suicídio nós redigimos caso necessário, em alguns casos até notas para o obituário. A loja não faz nada além de realizar sonhos de pessoas necessitadas. Pessoas que atingem um nível de desespero tão grande quanto este cara amarrado aqui na minha frente. Deveríamos ganhar o maldito prêmio nobel da paz.

Ele treme enquanto o prendo à cadeira, seu corpo trai a tentativa de parecer corajoso e decidido, ele não consegue disfarçar o medo. O suor aumenta, consequentemente aumenta o mau cheiro também. Em uma proporção inversa, minha paciência diminui. Agora é mais do que tarde para mudar de ideia. Mesmo que o medo faça com que o amor à vida floresça em meio à essas banhas, nada no mundo me faria parar, afinal de contas, é assim que ganho a vida.

No armário escolho uma dentre as diversas lâminas, um canivete, é o tamanho ideal para simular um assalto em uma noite de natal, o tipo de arma que um viciado usaria para roubar sua vítima. Coloco luvas e visto um avental de plástico, não quero sangue espirrado nas minhas roupas. Dou uma facada na barriga do gordo e ouço seus gritos, neste momento me dou conta de que seria melhor ter amordaçado o sujeito antes de começar. Anos de prática e sempre aprendemos algo novo, c’est la vie. Espero alguns instantes, deixo a ferida sangrar por um tempo, dirão que o ferimento ocorreu antes da morte, exatamente o que preciso para que tudo corra bem, e sempre dá tudo certo no fim das contas. O sangue já enxarcou grande parte de suas roupas, hora de seguir em frente, inclino a cadeira um pouco para trás e coloco uma toalha estendida sobre o rosto do gordo; vou até a sala ao lado e ligo uma mangueira à torneira. Hora de dar adeus a vida.

Deixo a água cair sobre a toalha por cerca de meia hora, ele não aguentou dez minutos. No começo se debateu e tentou sem sucesso gritar ou falar algo. Este breve momento em que a vida acaba e o corpo se torna nada mais que um recipiente vazio é incrível. É algo recompensador por si só, vale mais do que o salário que recebo por meu trabalho.
Procuro nos bolsos do pobre senhor vítima de um assaltante e acho o que eu mais queria, chaves de um carro. Não vou precisar me preocupar mais com o táxi. O tamanho do corpo é algo que eu devia ter levado em consideração antes. Não tenho forças pra levantar nem metade do peso desse sujeito. Em uma das salas da loja pego uma cadeira de rodas, já me ajudou outras vezes e será útil novamente. Solto as correias que prendem o homem a cadeira e com muito esforço o arrasto para a cadeira de rodas, não consegui deixá-lo sentado corretamente, mas o importante é que vou conseguir movê-lo dessa forma. Desço no elevador, sozinho como sempre. Quando desce deste andar, o elevador não para em nenhum outro piso. Nunca tive o problema de me sentir espremido com outras pessoas, o que é ótimo já que sou meio claustrofóbico.

No estacionamento vejo dois únicos carros, um é o velho veículo do segurança noturno, já cansei de ver este carro por aqui. Logicamente o outro é o carro que eu procuro. Aperto o botão da chave e as luzes do carro piscam e ele se destranca. Sinto um alívio ao confirmar minhas suspeitas de que aquele é o veículo que me levará para casa daqui a pouco. Abro a porta de trás do carro e empurro o gordo para dentro. Claro que não foi nada fácil fazer isso sozinho, mas pedir ajuda do segurança não parecia algo muito esperto a ser feito. Dirijo por cerca de dez minutos. Estaciono perto de uma ponte e jogo o corpo no rio. Dirijo até faltar apenas umas duas quadras para a minha casa. Paro o carro em frente a casa onde moram uns manos metidos a bandidos, acham que mandam na vizinhança por venderem drogas pra criancinhas na porta de escolas. Idiotas. Deixo a porta escancarada e aperto o botão para trancar. O alarme imediatamente dispara por causa da porta aberta.

Enquanto caminho o resto do percurso para minha casa pego o celular e ligo para a polícia, digo que aqueles vagabundos estão causando problemas novamente. A polícia muito provavelmente vai vir verificar o que está havendo, encontrarão um carro roubado, caso entrem na casa acharão drogas e armas. Se eu der sorte algum deles irá acordar com o alarme e irá ver o que está se passando, vai entrar no carro e tentar desligar o alarme, deixando para trás impressões digitais que provem que foram eles quem roubaram o carro. No dia seguinte quando encontrarem o gordo morto irão prendê-los como suspeitos pelo assassinato. Com certeza ao menos um canivete semelhante ao que eu usei eles tem dentro daquela casa. Vão concluir que foram roubar o homem, deram uma facada e ele caiu ou foi jogado no rio. Talvez papai noel reconheça meu bom comportamento durante o ano e me presenteie com um tiroteio sem sobreviventes entre os policiais e os traficantes que moram ali, isso sim seria um ótimo presente.

HERÓIS

“E o herói:
Minha heroína,
quando você caiu nos braços de Morfeu
eu caí na morfina…
Quer tomar uma Coca ainda?”

Histórias sobre heróis são muito contadas mas, normalmente, falam principalmente sobre os feitos heróicos dos mesmos. Mas muitas vezes esquecem-se os problemas dessas criaturas tão iconicas.

No momento em que ocorreram esses fatos os tais heróis estavam extremamente fora de moda mas, mais do que nunca, eram mais do que necessários. Qualquer coisa que se assemelhasse a um tipo qualquer de heroísmo seria bem vinda de volta naqueles dias.

O céu era de um tom cinza avermelhado, algo difícil de se explicar em palavras, difícil de ser descrito mesmo em imagens, só estando lá para realmente entender. Foi em um dia assim, com o céu estranho, em que aquele que antes era um herói entrou na mais profunda depressão.

Sua visão de raio X não servia nem para espiar por baixo das roupas das garotas que passavam, se surgisse uma emergência em que fosse necessária a visão de raios X, tudo estaria perdido…

Voar também estava fora de questão, o máximo que conseguia era dar uns pulos em alturas medianas como qualquer criança fazendo macaquices seria capaz. Devido ao sentimento de desânimo causado pela depressão, para sorte de nosso herói, nem passara por sua cabeça saltar de um prédio e tentar voar, caso esta ideia tivesse sido colocada em prática os jornais do dia seguinte estampariam, não na primeira página, a notícia do ex-herói que virou uma mancha no concreto.

A super velocidade provavelmente desapareceu junto com os outros poderes, mas ele não teve vontade o suficiente para tentar correr. Quanto a super força nem tem o que ser dito, por sorte, não é preciso de muita força para ficar deitado o dia inteiro olhando para o teto. Para deixar tudo ainda pior o uniforme tinha uma mancha rosa por causa do alvejante e um furo na sola do sapato que fez seus pés se enxarcarem por causa da chuva.

Entrou em casa e nem se preocupou em limpar os pés, foi andando deixando um rastro de lama por onde passava. Foi tirando as roupas e jogando no chão, mais tarde amontoando tudo no canto com os pés, colocou uma bermuda velha e uma camiseta desbotada. Bebeu um copo de suco com pouco açúcar, fez uma careta, e se deitou encarando o teto enquanto as horas passavam lentamente.

Não conseguia dormir mas estava longe de estar acordado.

Assim passaram-se os dias. Olhando para o teto e, eventualmente, se alimentando com alguma bobagem no meio da madrugada. O tempo já não fazia mais sentido. Talvez várias semanas tenham passado. Passado, presente ou futuro. Nada disso significava mais nada, só existia o agora e o não-agora, além disso, só era clara a noção de que o não –agora era muito mais agradável do que o agora.

No meio de uma tarde (talvez no meio de uma noite) um dos dispositivos de comunicação usado entre os membros da liga da qual este herói fazia parte (um aparelhinho pequeno que fazia uns sons estranhos que vinha na caixa junto com o uniforme, o manual do super-herói e uma cartela de aspirinas) começou a tocar. Conversou com a pessoa que o chamara, mas por pouco tempo e contra a vontade. A solução – ou o primeiro passo para uma solução – havia se apresentado, o que um herói decadente e desesperado precisa é de uma boa heroína para ajudá-lo…

Decidiram encontrar-se algum tempo depois para conversarem, a heroína tinha o propósito de melhorar o ânimo do herói.

Na impossibilidade de voar ou se teletransportar para o local onde combinaram o encontro, o herói resolveu pegar um ônibus. Olhava para o nada pela janela do ônibus enquanto as gotas da chuva batiam no vidro e escorriam. Desceu do ônibus e olhou ao redor procurando pela garota sentindo a chuva caindo em sua cabeça. Avistou do outro lado da rua a menina segurando um guarda-chuvas preto enorme para seu pouco tamanho, maior do que ela mesma. Ela sorriu, cruzou a rua e disse oi. Andaram pela rua dividindo o guarda-chuvas e mal conversando, nenhum deles sabia o que falar, mas por algum motivo o silêncio não era desagradável. Em alguns momentos a garota levava umas joelhadas na bunda enquanto andavam devido ao pouco espaço embaixo do guarda-chuvas para os dois juntos. Os dois iam em direção a base da garota, um lugar distante, uma espécie de fortaleza da solidão, tipo a do Super-man, porém mais solitária e isolada do que qualquer instalaçãozinha no meio do Ártico mesmo estando no meio da cidade. Chegaram ao local, subiram por uma plataforma que se parecia com uma escada mas era um portal para outra dimensão. Ficaram juntos por algumas horas conversando sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo. A garota preparou o almoço enquanto ele estava sentado, mesmo sem a visão de raio X, ele não conseguia tirar os olhos dela, tão linda ao fazer algo tão simples como cozinhar. Era estranho imaginar que alguns tem tanto brilho próprio ao passo que outros só existem por falta de escolha, estão ali (sobre)vivendo e pronto, isso é tudo. Mesmo sem fome ele comeu junto com ela, mas bem pouco, quase nada. Bebeu também um copo de suco que desceu muito bem mesmo não sendo uma coca (o sindicato dos super-heróis não pagava o salário dos heróis que abandonavam o ofício sem aviso prévio ou justificativa, por isso comprar refrigerante era inviável e os sucos instantâneos eram a única opção).

Depois de comerem ficaram em uma área da base reservada ao descanso e, em algumas noites, servia até mesmo para dormir. Lá ficaram sentados e, sem nem perceberem quando, ela o estava abraçando como se segurasse uma criança. De todas as promessas de salvação a heroína era a mais gostosa de todas, mas em algum tempo se mostrou tão ineficaz quanto as demais alternativas. Durante o tempo em que estiveram juntos se beijaram algumas vezes; mesmo não sendo namorados ou qualquer outro título que se dê para um casal, havia – e ainda há, onde quer que estejam – um carinho muito grande entre os dois. Apesar de todo o carinho, não fizeram nada a mais do que os beijos, o que por um lado deve ter sido uma grande frustração sexual, por outro lado foi bom. Não terem feito nada significava que o desejo não iria acabar tão cedo, não acabaria nunca, mesmo que distantes iriam querer um ao outro como nos momentos em que estiveram juntos, talvez o desejo tenha até aumentado, quem sabe? O importante é que – seja por medo ou por um resquício de bom caráter perdido na personalidade desse tão problemático herói – não fizeram nada.

Chegaram perto de começar algo, ele ergueu a blusa de nossa heroína e admirou e acariciou aqueles seios firmes porém macios, perfeitos como nada mais no mundo foi, é ou será. Este impulso foi cortado talvez por ambos saberem que não estava tudo bem (nada bem na verdade) e fazer aquilo seria um erro. Pararam e só ficaram perto um do outro sem dizer nada. A vontade de voltarem ao que estavam fazendo era enorme, provavelmente teriam retomado os beijos e os carinhos não fosse o súbito som vindo dos dispositivos de comunicação dos dois ao mesmo tempo. Receberam uma mensagem com o texto informando uma ameaça ao bem estar de muita gente, uma catástrofe que só os dois poderiam resolver, mas cada um teria que seguir seu próprio rumo. Decidiram que era o certo a se fazer mesmo sendo desconfortável. Cada um foi para uma janela da sala onde estavam. Contemplaram o abismo abaixo e resolveram que não podia mais ser adiado, deviam pular. A garota saltou e seguiu seu caminho em direção a sua parte da missão de salvamento do mundo. Ele a viu se distanciando e indo embora.

Pulou… há boatos de que o dia foi salvo por nosso herói, outros dizem que não foi bem isso o que aconteceu, alguns até mesmo dizem que não existe salvação. Difícil saber ao certo.

Nada mais que uma história cabeça

Um progama qualquer

 

Tudo começou num dia qualquer. Numa cidade qualquer. Num programa de auditório dominical qualquer.

Um apresentador mais que sensacionalista dá o show. Escuta os pedidos dos participantes, normalmente três por domingo, e, após todo o teatro e drama forçado, os telespectadores escolhem qual pedido deve ser aceito. O garotinho pobre contando como  sua vida é difícil e mostrando toda sua família maltrapilha antes de pedir um video game. O senhor que quer começar seu próprio negócio para poder melhorar as condições de vida de sua família pedindo equipamento para montar uma fábrica de estampar camisetas. Menininhas semianalfabetas que mal tinham o que comer chorando quando diziam o quanto desejavam a coleção completa da Barbie, com direito as bonecas, casinha, carro, moto, vibrador, notebook e tudo mais em que tivesse sido o adesivado o logotipo em cima.

A plateia, composta por pessoas tão mesquinhas quanto os pedidos feitos, sempre escolhiam o que comovia mais. Daí a necessidade do teatro na hora de cada um contar sua história. Por fim um dos três pedidos era atendido, todos acreditavam que era pelo resultado da votação mas, na verdade, tudo dependia do orçamento do programa. Normalmente eram escolhidos os pedidos mais baratos por três domingos seguidos e o mais caro no próximo.

Todo domingo era a mesma coisa. Três pedidos bobos. Um vencedor. Apesar dessa rotina eu me sentia bem apresentando esses programas semanalmente. Era um emprego de um dia por semana, durante poucas horas e com um salário muito bom. Não tinha do que reclamar. O tédio da rotina acabava se tornando meu aliado, eu sabia como desempenhar minha função com sucesso e conhecia todos os truques que consegui aprender ou inventar nesses anos que trabalhei como apresentador.

Em um domingo aparentemente como qualquer outro estava dando uma lida nos casos que seriam apresentados quando um me chamou atenção. Entre o pedido de uma passagem para o Hawaii e uma bicicleta estava um pedido um tanto quanto estranho. Uma pessoa pedia um corpo. Não soube na hora se deveria rir ou ficar com raiva da brincadeira de mal gosto. Depois pensei um pouco, talvez tivesse apenas se expressado mal. Possivelmente vítima de algum acidente pedia uma cirurgia plástica ou algo que pudesse reparar as sequelas. Talvez uma gorda pedindo por uma lipoaspiração ou vítima de obesidade mórbida – notem o preconceito contra a pessoa gorda, Obesidade Mórbida, o nome faz a condição aparentar ser pior que AIDS – ansiando por uma redução estomacal. Resolvi parar de imaginar qual era o problema e ler para entender o que realmente acontecia. Chocado percebi. Realmente a pessoa pedia um corpo.

Após uma curta briga com os produtores acabei sendo obrigado a aceitar o caso estranho, principalmente após ameaças da direção de me substituirem… o programa começou como todos os dias, gravamos a abertura, onde eu saudava os inúteispectadores e os alienados sem cultura da plateia. Cada participante apresentou seu caso, entrando um por vez. Quando chegou a vez da garota fiquei realmente boquiaberto. Uma assistente de palco, vestida em uma saia minúscula contrastando com o decote gigante, entrava empurrando uma mesa com a cabeça em cima. A visão era nojenta e ao mesmo tempo engraçada. Os cabelos lisos e castanhos chamavam atenção caídos sobre a mesa. Os olhos grandes e verdes pareciam tristes apesar de lindos. A pele era branca e delicada. Era realmente uma mulher linda, não era apenas uma garota.

Fiquei ainda mais irritado quando notei que a mesa era toda coberta, o corpo estava escondido embaixo da mesa, era óbvio. Em algum ponto os produtores do programa resolveram colocar um pouco de humor para melhorar a audiência e não me avisaram. Isso ou realmente acreditaram que alguém levaria a sério a ideia de um corpo sem cabeça, por mais idiota que as pessoas que seguem meu programa sejam – e são muito – existe limites para mentir. Nem a mais ignorante mente acreditaria numa cabeça falante em cima de uma mesa.

Laila, a cabeça, falava com uma voz doce e pausada. Muito calma e sem demonstrar insegurança. Dizia não se lembrar de onde veio, apenas ter aberto os olhos e começado a viver.

Fora encontrada por uma família de mendigos que a usavam como uma espécie de aberração circense. Extorquiam dos outros moradores de rua comida ou roupas em troca de verem a cabeça falante por alguns minutos. Apesar de se sentir usada, Laila não tinha para onde ir e nem como se locomover caso quisesse. Durante uma noite gelada o velho – de certa forma líder da família – tentou aliciar a pobre cabeça indefesa. O que pode parecer absurdo se torna comum considerando que vivemos num mundo onde, se tratando de coroinha, quem chega primeiro é mulher do padre. Gritando pelo que acredito que seja a mistura de pavor com nojo a cabeça acordou toda a família. A esposa do velho depravado, uma gorda banguela, se levantou com uma cara de fúria. Lançou aquele olhar que encolheria os testículos do mais macho dos machos e começou a berrar. O incrível é que berrava com Laila, não com seu marido. Pegou-a pelos cabelos e a atirou com toda força para o mais longe que conseguiu enquanto a culpava pelo ocorrido.

Rola. Rola. Gira. Gira. Assim ia a pobre cabecinha morro abaixo…

Caída no meio da rua quase foi atropelada, quando uma garotinha de uns doze anos a encontrou e, mantendo segredo de seus pais, levou Laila para morar em sua casa. Passou a comer no quarto, podendo assim alimentar aquele ser sem corpo.

Em troca da comida a menina recebia ajuda em seus deveres escolares. A cabeça, apesar de não se lembrar de nada do passado, conseguia efetuar praticamente todas operações matemáticas, das mais simples até as mais avançadas. Conhecia toda a estrutura da língua, explicando seu funcionamento interno melhor do que a própria professora havia feito.

Durante as tardes de domingo os pais se trancavam no quarto para, teoricamente, dormirem após o almoço. Eram horas em que não havia uma viva alma pela casa além da menina. Nesse período ela levava sua companheira desmembrada e destroncada para tomar sol no quintal. Para ver a rua. Teve até um dia que teve a infeliz ideia de brincar com Laila no balanço. Ideia frustrada pelo fato de não ter como se segurar enquanto balançava. Mesmo sendo derrubada hora ou outra, Laila se sentia feliz com essa vida. Feliz mas descontente. Provando ser humana apesar da ausência de corpo. Sua vida era agradável, mas ainda assim desejava reaver seu corpo perdido e recuperar sua memória.

Laila acreditava que voltaria a lembrar de tudo caso encontrasse seu corpo. Tinha em mente que era tudo questão de sintonia. Não se lembrava das coisas que viveu por não ter vivido como cabeça apenas, mas sim como um corpo inteiro. Somente quando recuperasse sua outra parte conseguiria recuperar todas as experiências vivenciadas.

Em um desses domingos de sexo disfarçado a menina resolveu assistir televisão. Como em todos os domingos nunca há nada interessante passando. Mudando de canal acabou parando, mais por ter sido vencida pelo cansaço do que por outra coisa, em meu programa. Pegou exatamente o desfecho, onde após entregar o prêmio ao simulado vencedor o dissimulado apresentador dava o endereço para onde deveriam ser enviadas as cartas com os pedidos e afirmava realizar qualquer desejo contanto que fosse o escolhido pelos intelectos geniais dos membros da plateia.

A menina escreveu uma carta contando toda essa história e, por ironia divina ou destino, foi a carta sorteada. Grande parte das pessoas mandava centenas de cópias da mesma carta. A menina mandou apenas uma e foi escolhida. Isso que não sei ao certo se é sorte ou azar, nos leva ao programa onde conheci Laila e, inesperadamente, minha vida mudou.

- Eu gostaria de ganhar um corpo, nem precisa ser um de primeira linha todo siliconado. Um corpo mediano, peitos não muito grandes mas não muito caídos. Nada além do normal. Não é minha maior vontade, mas já facilitaria muito a minha busca pelo corpo que é meu por direito.

Todos gargalhavam enquanto escutavam tamanho absurdo, menos eu. Acho que Laila viu que eu consegui ver o que ela via ao me ver…

Seus olhos depositavam confiança em mim atrás de toda a tristeza e incerteza. Por um momento acreditei nas esquipáticas sentenças proferidas.

Resultado

A estranheza de estar perante uma cabeça sem corpo foi desaparecendo conforme me lembrava de lidar semanalmente com minha plateia de corpos sem cabeça. O pedido por um corpo foi categoricamente ignorado. Era a semana em que o desejo mais caro seria atendido. Aloha Hawaii… Adeus cabeça sem tronco e membros….

Eu não entendia mais nada, teria aquilo sido realmente uma tentativa de satirizar o programa que já não era levado muito a sério? Nos bastidores tentei sem sucesso encontrar a garota, cabeça ou qualquer título que melhor se adeque a Laila.

Desisti e voltei ao meu camarim, tomei minha habitual taça de sorvete. Única exigência de minha parte, meu singelo capricho semanal. Aquele sorvete todo domingo era meu pequeno deslize na minha dieta relativamente saudável. Faltava apenas revisar alguns detalhes sobre o programa, checar a média de audiência da semana em comparação as anteriores e outras coisas do tipo.

Menos de uma hora depois do programa terminar já tinha trocado de roupa, o terno dava lugar ao jeans envelhecido e uma jaqueta marrom, quase preta, sobre uma camiseta qualquer. Onde estava um sapato italiano agora se enxergava o mais vagabundo All Star preto. Assim saia eu andando pelos corredores mal iluminados da emissora. Enquanto estava indo em direção ao meu carro escutei o que parecia ser uma discussão no estacionamento. Lá estava a cabeça, agora debaixo dos braços da pirralinha que chorava enquanto os pais tentavam impedir a volta da aberração para dentro de sua casa. Parecia uma bola.

Ah, como é linda a falta de delicadeza infantil…

Como quem não quer nada fui me aproximando e escutando a conversa da família. Os pais não queriam permitir a volta da cabeça para casa, ainda mais depois de terem sido enganados pela delinquentezinha juvenil. A mulher, demonstrando sua óbvia familiaridade com os belíssimos mamíferos tapirídeos, sugeriu que jogassem a cabeça na lata de lixo e fossem embora. Aquilo era coisa do diabo. Dizia ela. Obra do tinhoso.

Escutando esse breve momento de sabedoria que pode ser considerado uma das grandes maravilhas do (i)mundo, resolvi me intrometer.

Fingi não saber o que acontecia e perguntei se estava tudo bem. “Leve essa coisa pra longe de mim”, “isso não é normal”, “Deus não gosta”, “queime essa perniciosidade”… essas são algumas das asneiras que fui obrigado a ouvir. E ouvi muitas, pode acreditar.

Por fim aceitaram deixar a cabeça intacta contanto que eu a levasse embora para o mais longe possível deles. A vontade da menina, assim como os desejos de todas as crianças, foi deixada de lado pelos pais que se escondiam atrás do velho e infalível argumento “estamos fazendo o melhor para você”.

Após um breve cabo de guerra com a menina para decidir quem ficava com Laila, venci. Por mais que a pivetinha fizesse força para não soltar os cabelos não adiantou. Confesso que, discretamente, pisei no pé da menina. Facilitando a disputa. Ninguém percebeu. Se perceberam fingiram que não. Queriam se ver livres da cabeça amaldiçoada. Eles mesmos bateriam na menina caso eu não tivesse feito isso por conta própria.

Observei o rosto que me olhava em silêncio, depois olhava com o canto dos olhos para a menina. Parecia tão triste quanto a criança pela separação inesperada. Em um gesto de bondade tentei aliviar a dor da despedida. Guardei, com todo carinho do mundo, Laila dentro de minha mochila. Pedi que tomasse cuidado para não babar em meus livros, eram novos e esperava que continuassem daquela forma.

Com a cabeça ensacada não existia a mesma dificuldade na separação. O rompimento era bem mais simples sem um contato direto. Em algumas horas a menina esqueceria toda a raiva e insatisfação e encontraria novos interesses. Buscaria novas experiências. Nem se lembraria do tempo que passaram juntos. Tinha certeza disso. Toda separação é assim. Queria tanto poder acreditar no que acabei de dizer…

Indo para casa

Ignorando o choro da criancinha barulhenta entrei em meu carro e joguei a mochila no banco do passageiro…

Melhor rever essa passagem…

Ignorando o choro da criancinha barulhenta entrei em meu carro e, cuidadosamente, coloquei a mochila no assento ao lado do meu – agora não serei julgado por nenhuma comissão de ética ou defensores dos direitos humanos por ter tratado de qualquer jeito um ser teoricamente vivo – e segui meu caminho habitual. Não estando acostumado a ter companhia não sabia como começar um ato de socialização,  não fazia ideia de qual seria a melhor forma de iniciar uma conversa se é que eu deveria puxar algum assunto. Resolvi, como sempre faço em situações semelhantes, permanecer calado.

Barulho de carros indo e vindo, pessoas andando e falando, gritos durante a tentativa de assalto, o escândalo da puta na esquina, os tiros que tiram uma das muitas vidas que serão perdidas nessa noite… Nada. Por mais alto que fosse o ruído o silêncio sempre é mais forte. O silêncio traz uma agonia maior do que a criança suja e doente pedindo trocados do lado de fora do meu carro. Esse silêncio infernal precisa acabar, mas como?

Não acabará nunca. Aprenda a conviver com o silêncio. Aprenda a escutar o que não foi dito. Aprenda a fingir que não se incomoda com o silêncio. Logo estaremos em casa e tudo estará bem. Ou talvez não…

Em casa

Apenas ao abrir a porta de casa, poucos segundos antes de entrarmos, é que fui dizer minhas primeiras palavras para o crânio em minha mochila.

– Quer comer alguma coisa?

Como resposta recebi um olhar de desaprovação misturado com ódio ou algo assim. Não sei o que teve de tão errado em minha pergunta. Como não tem corpo não pode comer? Só por isso? Absurdo!

Peguei o pequeno monstrinho antissocial pelo cabelo e coloquei no sofá onde começamos a conversar. Ela repetiu toda a história que já havia dito durante o programa, prestei atenção em todo o percurso desde o despertar misterioso até o presente momento. Nenhuma novidade ou explicação que fizesse sentido para uma cabeça sem corpo estar viva.

Comecei a me preocupar com a situação. Afinal, o que seria melhor? Deveria tentar ganhar algo com aquela cabeça falante? Era só pensar bem que surgiria alguma forma de tirar proveito disso, não é sempre que aparecem por aí cabeças falantes. Ou será que eu deveria tentar ajudar a pobre criatura? No fim das contas era um ser vivo buscando por algo que lhe completasse, nesse ponto a inconvencional Laila é igual ao mundo inteiro. Por mais que as pessoas sejam diferentes umas das outras, ainda são idênticas. Estão sempre buscando por algo, mesmo que não saibam o que seja, que as complete. Sempre na busca de um significado para suas vidas, um motivo para se levantar da cama de manhã e sobreviver mais um dia.

Talvez Laila não fosse um monstro no fim das contas. Talvez ela seja mais humana que os vagabundos pedintes que deram abrigo e a exploraram. Talvez ela seja mais humana do que a família que quis se livrar da encrenca enquanto a sua filha chorava aos berros. Talvez ela seja mais humana do que eu mesmo. Eu, que tenho uma vida sem nenhum grande problema mas, ao mesmo tempo, completamente vazia. Completamente sem significado. Pelo jeito eu também necessito de algo. Ainda não sei o que é. Mas descobrirei, eventualmente. Assim espero.

Acabei, pensando mais em mim, decidindo ajudar naquela – que se tornaria tão minha quanto dela – busca. Passados os segundos, ou milésimos de segundo talvez, que duraram os sentimentos heróicos do momento “vamos encontrar seu corpo” veio o bom e velho choque de realidade. Acaba esse pequeno instante de alegria e esperança quando se pensa no lado prático das coisas. Por onde começar? Acredito que já teriam escutado notícias se encontrassem um corpo sem cabeça em algum lugar por aí. Caso encontrado andando então, o que não deixa de ser uma possibilidade, nem imagino o escandalo que já não teria sido feito. Então, realmente, não acharam ainda o corpo, se é que existe, de Laila. Onde devemos começar nossa busca?

Como já disse, suas memórias antes do dia em que despertou e foi achada pelos mendigos era algo inexistente. De alguma forma ela sentia que lembraria de tudo caso se unisse novamente ao corpo. Mas como achar o maldito corpo? Só preciso de uma pista, um primeiro passo. Só preciso de um ponto de partida…

Não sei o que fazer. Estou perdido.

E agora?

Refizemos todos os passos de Laila. O pior é que levamos muito tempo nessa fase mesmo se tratando dos passos de alguém sem pés.

Fomos ao beco dos mendigos, onde conheci pessoalmente a nojenta família. Vi quem era a gorda banguela e o velho pervertido, a imagem que eu fiz deles não era exagerada, eram realmente desprezíveis. Pude também ver as suas criancinhas sujas e raquíticas. Os bracinhos secos destoando das barrigas inchadas pelas nada solitárias solitárias. Em um canto estava uma menina deitada no chão. Enquanto dormia coberta com uns trapos um bebê de uns poucos meses estava deitado em cima dela com o rosto cheio de mosquitos. Não eram seres humanos. Aquilo eram bichos, ou até menos que isso… As condições em que viviam eram péssimas. Pude entender o porquê deles tentarem usar Laila como ganha-pão. Entender. Concordar não. Malditos animais, por mais que sua situação seja lamentável ainda existem limites, o fato de viverem como lixo não é desculpa para o que fizeram, principalmente a tentativa de abuso.

Fazia um frio dos diabos e ventava forte. Outros grupos de mendigos nos observavam de longe. Me senti numa daquelas cenas onde só se enxerga os olhos dos monstros ao fundo, observando, esperando o momento ideal para atacar. Demos uma olhada pelo lugar, fomos até o canto onde a cabeça era deixada durante as noites e nada. Perguntei para o velho onde ele tinha a achado e ele enrolou. Disse não se lembrar direito porque havia bebido no dia. Desgraçado. Continuei fazendo outras perguntas sem nenhum sucesso, Laila estava dentro de minha mochila durante todo o tempo e foi então que percebi algo no mínimo curioso. Um cachorro.

Um cachorrinho cinza, peludo e sem raça. Não era a primeira vez que eu via aquele animal – que era o ser mais humano daquele local            repugnante – só não me lembrava ao certo de onde era…

Não gosto de bichos. Não tenho nenhum pingo de paciência com animais, não acho bonitinho um cachorro ou algo do tipo. Me lembro daquele vira-lata imundo por quê? Pense um pouco… o estacionamento… a frente de minha casa… agora, aqui. Aquele cachorro esteve me seguindo desde que tomei posse da cabeça naquele estacionamento. Por quê?

Abri um vão da mochila para que pudesse me ver e perguntei a Laila como exatamente ela acordou.

Não sei direito… lembro de um cachorro me lambendo…

Um cachorro lambendo!!! Era o que me faltava… só podia ser aquele pulguento cinza ali na minha frente, qual outro motivo faria esse bicho me seguir exatamente após Laila estar comigo? Depois de conviver um tempo com uma cabeça falante, acreditar que tem algo de suspeito no cachorro não é nada. Será que ele fala? Seria ele o guardião das entradas do inferno e Laila uma fugitiva das profundezas? Me aproximei do cachorro e, me sentindo um idiota, disse oi.

Nada. O cachorro não fala. Uma esquisitice a menos para eu entender. Pensei em chutar o cachorro para descobrir se ele voa ou solta raios, mas achei melhor não, isso poderia espantá-lo. Me agachei e mostrei o cachorro a Laila.

Foi aquele?

Acho que sim.

Agora tínhamos nossa primeira pista. O problema estava em decifrá-la. O que significava o cachorro? Qual seu papel nessa palhaçada toda?

Pensei em levar o cachorro comigo mas não queria um bicho fedorento perto de mim. Apenas olhei bem procurando por algum sinal que pudesse me ajudar, nada de coleira, nenhum aviso de risco radioativo, um cachorro de rua comum. E agora?

Senti alguém se aproximando enquanto eu estava abaixado  observando o cachorro. Me virei e notei a presença  de uma das criancinhas tísicas andando de mansinho em minha direção com um canivete todo enferrujado em uma das mãos. Hora de ir embora. Me levantei, chutei o filhote de mendigo e sai, com a mochila na mão e o cachorro embaixo do braço. Que mais algum vagabundinho tente se aproximar…

Acho que se deram conta de que não era uma boa ideia tentar me roubar. Sai rápido, mas ainda andando. A última coisa que precisava naquele momento é que um bando de mendigos imundos e raivosos percebesse que eu estava morrendo de medo.

Memórias

Cabeça na mochila. Mochila no banco. Cachorro no chão em frente ao banco. Vou dirigindo sem pensar no que poderia ter acontecido caso os mendigos se juntassem em um ataque. Não tenho nenhuma vontade – muito menos habilidade – de brigar. Só chutei para longe o desgraçadinho que me atormentava com um canivete porque era uma criança, se fosse alguém maior não saberia o que fazer. O importante é que funcionou. Consegui criar uma imagem que impôs respeito no meio dos mendigos, lembro de escutar enquanto andava resmungos no idioleto mendiguês, com certeza falavam sobre mim. Estava cercado por animais prontos para atacar ao menor sinal de fraqueza, mas que ainda temiam por suas vidas. Todo meu corpo gritava “corra!” enquanto meu cérebro tentou, frustradamente, se manter no controle. Creio que, já que estou vivo, a batalha entre meu raciocínio e meu instinto acabou tendo um bom resultado. Fugi, mas sem demonstrar o medo que sentia.

Senti um alívio sem tamanho dentro do carro, só depois de alguns minutos é que consegui voltar a pensar no plano geral e não apenas na tentativa de assalto/assassinato/estupro dos animalescos mendigos. Como essa idiota dessa Laila diz não ter memórias? Ela não abriu os olhos e começou do zero, sem nenhum conhecimento, dá para perceber que ela possui memória, caso contrário não seria possível que ela falasse, pelo menos acho que é assim. Mesmo que sejam diferentes, ainda existem ali traços da memória de sua vida anterior. Ela fala com o mesmo vocabulário que as pessoas geralmente falam hoje em dia, está descartada a possibilidade de ela ser uma criatura mítica atemporal. Ela é, no máximo, uma coisinha qualquer contemporânea. Sua existência não é maior do que a minha própria provavelmente. Mais uma pequena peça do quebra-cabeça apareceu. O problema é que ainda faltam muitas peças, muitas mesmo. Ainda está longe de ser possível enxergar a imagem geral. O importante agora é saber que a memória, mesmo que parcial, está ali em algum lugar.

Questão de fé

Nunca fui uma pessoa religiosa e, sinceramente, não pretendia começar naquele momento. Apesar de minha visão não muito aberta com questões de certa forma sobrenaturais já havia esgotado qualquer possibilidade que beire algo lógico nessa procura pelo corpo. Alguns dias do episódio com os mendigos se passaram, o cachorro agora está limpo e fica solto dentro do apartamento, confesso que o odeio, mas pode vir a ser útil em algum momento nem imagino como.

Uns dias antes tentamos apelar para a psicanálise, mas o velho analista ficou perturbado demais e não conseguiu ficar nem um terço dos sessenta minutos habituais. Três dias depois quando recebi a fatura do cartão de crédito percebi que o idiota cobrou a consulta mesmo não tendo feito nada. Coisas assim irritam muito, mas não é hora para brigar por besteiras, temos um objetivo nada fácil pela frente e as coisas não se acertarão sozinhas. Não vão bater na porta durante a noite e, quando abrir a porta, vejo o corpo desaparecido com uma placa “devolva minha cabeça, por favor”. Depois de pensar muito cheguei a uma conclusão, considerando a cabeça em minha posse e imaginando como seria seu corpo perdido, minha coleguinha de quarto deveria ser, com todo respeito, gostosa. Mais um motivo para tentar a deixar inteira o mais rápido possível, serei seu salvador, o sentimento de gratidão vai existir, uma coisa leva a outra, sabe? Faz bastante tempo que estou sozinho, não posso deixar passar essa oportunidade caso ela apareça. Mulheres maduras não se interessam por alguém desinteressante e sem nenhum conhecimento útil como eu, ninfetinhas pervertidas – e jovens/adolescentes regulares, mas essas não me interessam – também não. Considerando que não me encaixo no perfil que atrai essas menininhas, não tenho medo de sexo, não bebo sangue nem brilho no sol, cada dia é mais difícil encontrar companhia, então alguém sem corpo se torna uma possibilidade viável, é bem melhor que nada. Mesmo que acabe demorando para encontrarmos o corpo de Laila ainda dá para gente se divertir bastante caso surja a oportunidade, pode não ter um corpo mas ainda tem a boca e, graças a Deus, a língua.

Graças a Deus. É nessa parte que queria chegar após alguns desvios do assunto… Deus. Deus estava morto. A tendência era abrir mão de qualquer laço religioso e vivenciar a evolução tecnológica relâmpago em tempo real. Tudo era novidade. Nada mais é novidade. Deus voltou a vida. Mais vivo do que nunca. Agora a moda é ser ungida, fechem as pernas irmãzinhas. Abram mão de tudo que for carnal, material, imoral e qualquer outra coisa que rime aqui.

Hoje em dia todos seus problemas podem ser levados embora em uma fogueira sagrada onde você escreve o que lhe aflige e doa o máximo ou todo seu dinheiro de preferência, os papeis com os pedidos serão queimados, o dinheiro também, mas será queimado com carros novos e prostitutas de luxo para os líderes religiosos. É incrível como sua felicidade só será obtida após você se desfazer de tudo que lhe prendia a sua vida de pecado, livre-se de seu carro, de sua casa, de sua geladeira, aproveite e dê sua esposa e suas filhas para o pastor também.

O mais interessante é o aspecto democrático dessas pequenas igrejas – grandes negócios. Todos são bem vindos, desde os mais ricos até os mais humildes. Os pedidos começam lá no alto, irmãos, doem trezentos reais agora porque Deus irá abençoar aqueles que fizerem esse belo ato para nos ajudar, um ou dois se levantam e vão a frente, irmãos, por favor, precisamos de seu apoio para que a obra de Deus continue, cinquenta reais, cinquenta reais já vai nos ajuadar demais, e o valor vai gradativamente abaixando em oposição ao número de pessoas que vai aumentando cada vez mais. Irmãos, você não precisa dar uma quantia alta, Deus não vê riqueza, Deus vê sua generosidade e bondade, pegue o trocadinho do pão de amanhã, deixe o pão de seus filhos pra lá, pão é gula, e se levantam mais algumas pessoas oferecendo as únicas moedinhas que irão ter por um bom tempo. Desonesto mas rentável esse trabalho de vendedor da palavra divina.

Existe até igreja que oferece dieta em Cristo, parcelada em cinco vezes ainda. Deus não gosta de gordos, a porta do céu tem vinte centímetros, chegou e não passou, vai pra baixo na hora, não tem volta.

Acredito que não vamos ter grandes resultados, mas não custa nada tentar, quando nada mais dá certo é hora de procurar uma igreja. Ex-assassino, ex-puta, ex-drogado, ex-traficante, ex-bêbado, ex-homossexual, ex-namorada, todo tipo de ex que possa ser possível se recupera dentro de uma igreja qualquer contanto que paguem em dia o carnê da respectiva instituição.

Era hora de ter uma conversinha com o menino Jesus.

Confesso que não funcionou.

Fomos em várias igrejas diferentes, até na maçonaria que com a crise começou a aceitar pobres também. Nada funcionou. Me recusei a ajudar com a compra de camisinhas para os padres passarem tempo com os coroinhas ou seus banquetes luxuosos enquanto quem frenquenta o lugar passa fome. Não quis ser exorcisado nem aceitei fechar os olhos em um lugar onde todos queriam roubar minha carteira. Tenho fé que encontrarei respostas melhores em outro lugar…

Beco sem saída

As memórias mortas não quiseram ressucitar após o terceiro dia, não quiseram ressucitar nem após o terceiro mês. O tempo foi passando e tudo continuou sem solução.

Mesmo sem avanço na conquista de sexo oral assumo que nasceu uma ligação um pouco esquisita mas muito forte entre mim e Laila. Tirando as horas das gravações o resto todo do tempo eu passava ao lado dela. Três meses vivendo juntos acabou nos deixando bem próximos, aprendemos bastante um sobre o outro.

Naquele ponto já sabia que ela não comia, não conseguia, tentou mas foi horrível o resultado, prefiro nem comentar. Sabia também de seu gosto musical que só apreciava aquilo que fosse sonoramente agradável, nada de funk, pagode, sertanejo, rock… Somente músicas com uma harmonia perfeita ou alguns exemplares de música clássica. Outra coisa que notei com o tempo era sua facilidade para dormir, sempre que não estávamos fazendo nada ela acabava pegando no sono, normalmente isso sempre acontecia no meio de filmes, ficava tão linda com os olhos delicadamente fechados, sentia uma respiração leve apesar da ausência de pulmões. Em alguns momentos que começaram raros mas foram ficando cada vez mais frequentes vi seu lindo sorriso.

Não tivemos nenhuma evolução em nossa empreitada mas eu estava me acostumando com a ideia dela vivendo ali comigo, não dava trabalho, não me fazia ir em lugares chatos, nunca reclamava de meu comportamento. O tempo que passavámos juntos era bom, divertido, me fazia bem como não me sentia durante anos. Talvez aquela pessoa incompleta fosse a mulher de minha vida. Adoro um bom par de peitos, mas para tudo se dá jeito na vida, me adaptaria a uma namorada sem corpo.

Fiz incansáveis pesquisas – leia-se google – sobre transplantes de cabeça e fiquei muito triste com os resultados. Até agora parecia impossível que eu conseguisse um corpo para ela. Queria dar um jeito de conseguir um corpo para Laila mesmo que eu acabasse vivendo com a noiva do Frankenstein. Também não existiam ainda próteses para corpo inteiro, era possível apenas substituir um braço aqui, uma perninha ali, mas nada de corpo inteiro. Nada com corpos cibernéticos também, não tinha muita vontade de morar com a companhia do C3PO, mas tudo que pudesse ser uma possibilidade nem que mínima tinha ser estudado. Tudo indicava que seria impossível recuperar o corpo original, então soluções alternativas precisavam ser cogitadas, infelizmente nenhuma ideia pareceu funcionar.

Não tem jeito, não temos para onde correr. Não existe nenhuma luz no fim do túnel dessa vez, nem mesmo a luz do trem.

Mais uma semana se passava e nada. Mais um domingo indo para o estúdio gravar e… algo que estava ali na minha frente talvez há bastante tempo já. Algo que passou completamente despercebido. Alguém viu esse cachorro? Ligue 3022-3250.

Cachorro perdido

Resolvi ligar para o número do cartaz, não acreditava que teria nada que fizesse muita diferença, mas talvez fosse possível ter uma noção de onde pode ter sido o local onde Laila despertou com as lambidas do cachorro.

Na pior das hipóteses pelo menos eu me livraria daquele bicho que só me dava trabalho.

Uma senhora com uma voz séria mas educada atendeu. Pareceu muito feliz por receber notícias do cachorro que havia sumido. O bicho era de sua filha, filha única revelou a senhora. Tentaram de tudo para animar a menina mas mesmo depois de meses ela ainda estava triste com o sumisso do seu bichinho de estimação. Não tenho paciência com pessoas mimadas, talvez veja muito de mim mesmo em pessoas assim e isso me irrite. A senhora me passou seu endereço e disse para ir no fim da tarde, assim a menina já teria voltado da escola e ficaria feliz de receber seu cachorro de volta.

Expliquei para Laila aonde iria durante a tarde, não tinha como levá-la junto. Não dá para sair por aí carregando uma cabeça sem chamar muita atenção, melhor evitar esse tipo de coisa, não tem como saber o que pode acontecer num caso desses. Nem sempre é fácil lidar com o inesperado.

Assistimos um filme mesmo com a atenção completamente dispersa, a tensão e a ansiedade. O filme era um drama de uns anos atrás, contava a história de um pai tendo que lidar com a morte da esposa e completamente perdido sobre a maneira de falar disso com suas duas filhas. Acabou decidindo fugir, tentar ignorar tudo que aconteceu e fazer algo para distrair. Pude enxergar em um filme um pouco da realidade, todo mundo parece tentar mascarar os problemas sempre. Está tudo dando errado mas sempre arrumam uma maneira de fugir, sempre há como não enfrentar as dificuldades, correr e deixar tudo sem ser resolvido. Foi a primeira e única vez que vi Laila chorando. Vê-la chorando foi realmente difícil, fiquei muito preocupado e me deu uma angústia enorme saber que não podia fazer nada. Me arrependi de ter escolhido esse filme, se soubesse que isso aconteceria teria escolhido qualquer coisa diferente, mesmo que fosse pornô S&M.

As horas lentamente se passaram, Laila cochilou e saí mais ou menos quarenta minutos antes do que deveria. Era mais fácil ir sem que ela me visse, não sabia o que dizer depois de presenciar o choro.

Entrei no carro com o cachorro no banco de passageiros – me irritava muito pensar em toda a sujeira que ficaria no carro – e fui em direção ao bairro indicado. Era um dos bairros mais ricos da cidade, afastado do centro, demorei um tempo para encontrar o número certo, o 396.

A casa era antiga e feia se comparada com as outras da vizinhança. Era maravilhosa se comparada com as casas de outras pessoas que não são monumentalmente ricas. Passei direto pela rua e continuei reto cerca de dez minutos até encontrar uma padaria. Desci para tomar uma coca. Tinha bastante tempo até o horário que combinamos, não tinha pressa. Enrolei um pouco e voltei para o carro. Fomos dessa vez para onde o cachorro retornaria.

Saí do carro e toquei o interfone, demorou um tempo até que alguém respondesse, era a mesma senhora que havia atendido a ligação. Ela foi novamente educada, mas sem dar muita liberdade. Agradeceu e disse que já estava descendo para abrir o portão. Desceu sozinha, insistiu em ver o cachorro antes de dizer qualquer coisa para a filha, não queria causar falsas ilusões caso fosse o animal errado.

Era o cachorro certo. Aquele era o cachorro perdido alguns meses antes. Pouco mais de três meses. A mulher foi chamar a menina que, quando chegou ao portão pude ver, tinha uns onze ou doze anos. A típica menininha mimada que mal sai de casa e pede para as amigas deixarem comentários cada vez que atualiza suas fotos do orkut. A garotinha que – como no filme de poucas horas atrás – também escolheu fugir da realidade criando seu personagem virtual. O tipo de pessoa desesperada por carinho ou atenção que inventa qualquer história para se aproximar de uma pessoa ou para manter uma conversa por mais banal que seja. Desceu com seu nariz empinado e com uma cara de nojo. A pessoa mais convencida do mundo. Perguntou o que a mãe queria e nem olhou na minha cara, só depois viu o cachorro perto de mim e correu para abracá-lo. O jeito metido desapareceu completamente, pensei comigo mesmo em como seria a alegria de Laila ao reencontrar seu corpo perdido, se aquela menina ficou tão feliz por causa de um cachorro imagine só quando encontrássemos o corpo.

Perguntei para a senhora como o cachorro tinha sumido torcendo para que não dissesse que ele fugiu de casa. Ela disse que não sabia o local exato, para eu perguntar para a menina, ela estava com ele na hora que saiu correndo e desapareceu. A garotinha confirmou a história, estava passeando com o cachorro quando ele saiu correndo e nunca mais apareceu. Quando perguntei aonde isso tinha acontecido ela explicou, não foi muito longe dali, dois quarteirões dali havia uma rua praticamente sem casas, só se viam umas duas ou três afastadas umas das outras em meio a vários lotes sendo vendidos.

O corpo

Era tarde da noite quando cheguei em casa, pouco mais de meia noite. Laila estava acordada quando entrei com as roupas totalmente sujas. Perguntou o que havia acontecido, quis saber o motivo de eu estar daquele jeito. Era muito clara a preocupação em sua voz, pude perceber que ela se importava muito comigo apesar do pouco tempo de convívio. Talvez se importava até mais do que deveria.

– Encontrei seu corpo. A garotinha dona do cachorro indicou a direção onde o bicho sumiu e comecei a fuçar. Acabei em frente a construção de um prédio. A construção parou faz bastante tempo pelo jeito, está completamente abandonada. Pulei a grade que a cercava e resolvi dar uma olhada. Encontrei… vou tomar um banho e depois nós vamos lá. Depois a gente conversa direito, agora não dá, estou cansado de verdade.

Laila nem teve tempo de responder, se disse alguma coisa eu nem percebi. Demorei mais do que o normal no banho, deixei as roupas sujas jogadas em um canto no chão do banheiro. Sai sem roupas do banheiro, estava tão preocupado que nem me lembrei que Laila estava lá. O cansaço me impediu de ficar constrangido.

– Hora da gente ir.

Essas foram minhas últimas palavras, dizia isso enquanto pegava Laila com minhas duas mãos e a levava para o carro. Dessa vez não a coloquei na mochila.

O caminho até a construção era relativamente longo, aproximadamente uma hora para atravessar a cidade. Não trocamos uma palavra o caminho todo, lembrou nossa primeira vez no carro. Horrível esse silêncio.

Chegamos no local da construção, não tinha ninguém por perto. Era um local totalmente vazio. Me aproximei da grade de segurança que cercava o prédio inacabado e joguei Laila por cima da grade, sei que não foi muito delicado de minha parte mas não tinha outro jeito, só então percebi que o cadeado do portão estava prendendo a corrente, mas se encontrava aberto. Menos mal, dessa vez não precisei pular.

Fui até o lugar para onde Laila rolou com a queda após ser arremessada, dei uns tapinhas para limpar a sujeira que acabou juntando enquanto estava no chão e a carreguei enquanto andava em direção ao interior do prédio. Ainda no térreo chegamos ao local onde estava seu corpo. Nossa busca tão infrutífera por tanto tempo teve um fim repentino com o aparecimento dos donos do cachorro.

Laila finalmente teve aquilo que desejou. Recuperou seu corpo e lembrou de tudo que já havia acontecido em sua vida.


Toda história tem final feliz, só é preciso saber quando parar de contá-la.

  FIM .


Finais felizes

Consigo me lembrar de tudo… Agora eu sei o que aconteceu… Meu Deus…

Não somos mais inocentes a ponto de acreditar em finais felizes. Ninguém é inocente a esse ponto, finais felizes estão tão mortos quanto a sociedade em que vivemos.

O desejo de conseguir um viveram felizes para sempre ainda move a maior parte das pessoas, ainda as impulsiona a continuar vivendo em um mundo completamente sem sentido. Melhor dizendo, sobrevivendo em um mundo sem sentido. Não existem motivos para se levantar da cama, não existem propósitos em viver, nem sei se já existiu algum dia uma razão para estar vivo. A única desculpa para não cair na mais profunda depressão é tentar encontrar algo que complete esse vazio. Alguma coisa qualquer que preencha de alguma forma a falta de sentido da vida. Tudo é válido nessa busca desesperada, de álcool e drogas a Jesus. Cada um acha sua própria fuga. Mas sabemos que é tudo uma mentira. Por mais que exista a vontade de acreditar que as coisas vão dar certo, somos – eu e você – inteligentes demais para cair nessa histórinha. Não vai dar tudo certo. As coisas estão ruins e a tendência é piorar. O desejo não passa de ilusão. Ao perceber essa dura realidade caímos no conformismo e definhamos até a morte. Sem ilusão não há vida, só restaria uma morte lenta e dolorosa.

Por alguns meses perseguimos o passado. Lutamos para recuperar o que havia sido perdido – grande ilusão essa, o que se perde não se recupera nunca. Lutamos em vão. Deixamos de viver o presente, apesar das dificuldades óbvias de viver sem um corpo era possível acharmos um jeito de fazer as coisas funcionarem. Tudo poderia ter sido diferente. Estragamos momentos em que estivemos juntos dando importância para tudo que – bem ou mal – já passou.

Laila recuperou a memória.

Desejo realizado.

Tome muito cuidado com o que deseja.

Dezenove anos. Andando sozinha a noite voltando do trabalho. Passando por uma rua sem movimento. Abordada por alguém armado e aparentemente drogado. O revólver apontado para as costas enquanto era puxada pelo braço em direção a um carro onde foi amarrada e levada para uma construção abandonada. O pavor. O pânico. Sabia o que estava prestes a acontecer. Sabia também que não existia maneira de evitar. Não havia fuga. O soco no estômago. Tudo estava fresco na memória novamente, era como se estivesse acontecendo novamente o que não deveria ter acontecido nunca. As roupas arrancadas a força. Estuprada. Espancada. Chorando. Querendo berrar e não conseguindo emitir um som sequer. A vontade de levar um tiro e que aquele inferno de vida acabasse logo. Mais socos. Mais dor. Nada de morte. A lembrança do rosto bem mais velho que o seu e sua feição animalesca. A consciência de que a humanidade está desaparecendo e dando lugar à uma nova espécie de seres irracionais completamente violentos. Tudo acabou. Sangue por todo o lugar. Dor em cada centímetro do corpo. Passaram-se horas. Finalmente algo bom. O tiro indo em sua direção. O fim de todo sofrimento.

Algum tempo depois o sujeito havia voltado para completar seu serviço. Começou cortando o braço esquerdo da garota. Direito. As pernas. Arrancou a cabeça.

Era pouco mais de onze e meia da noite, um grupo de estudantes voltava da aula pela rua em frente a construção. O barulho fez com que fugisse sem terminar de enterrar completamente o corpo. Ligou o carro e foi embora.

Semanas depois um cachorro lambia uma cabeça ensanguentada que, sem explicação abriu os olhos sem fazer ideia de onde estava.

Meses depois vem a tona todos os acontecimentos que, já que existiram, deveriam permanecer enterrados.

Ela sorriu para mim.

Naquele exato momento seus olhos se fecharam e não abriram mais.

Tentei fazê-la acordar. Não iria mais abrir os olhos, certeza.

Corri o mais que pude. Chorava descontroladamente enquanto ligava o carro, só consegui colocar a chave no contato depois da quarta tentativa. Voltei para minha casa, só queria meu quarto. O caminho que antes levou uma hora foi feito em menos de trinta minutos.

Chorei dias seguidos. Fiquei trancado em meu quarto sem conseguir entender nada do que estava acontecendo. Alguns dias passaram. Dia de gravação. Hora de fazer como todo mundo e fingir que está tudo bem, nada aconteceu.

Hora da ilusão disfarçada de desejo.

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