A Primeira Mentira
Hoje, após fazer um regresso ao lado mais obscuro de minha mente e chegar nas nunca antes alcançadas profundezas – não tão infernais – de minha memória, relembro de minha iniciação em um dos mais belos, e certamente imor(t)al, ritos sociais: a mentira. Por, os relatos a seguir, trazerem imagens, ou reles resquícios imaginários, situados em uma memória parcialmente esquizofrênica, os fatos talvez não sejam exatamente fatos, possivelmente sejam apenas uma forma de mentir sobre a primeira mentira, provando, então, meu valor como mentiroso em período integral. Mas deixemos de conversa fiada e sem propósito. Vamos entender como nasceu a primeira mentira – minha primeira mentira, um conceito mais universalizado da primeira mentira pode ter sua origem na forma: בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ. Enfim… vamos manter o foco.
Lembro do período que recuso chamar de infância. Uma época na qual eu tinha quatro ou cinco anos de idade, mas apenas essa era a característica que eu possuia em comum com os membros da comunidade/sociedade/cooperativa infantil. Por algum motivo, talvez por ser mais barato ou mais prático, minha irmã, que morava em outra cidade, mandava telegramas para minha mãe. Tais mensagens transmitidas nessa forma nada convencional ou prática chegavam periodicamente, era praticamente um ciclo menstrual comunicativo. Passava-se o mês e, depois de uma série de desconfortos, chegava aquela surpresa nada surpreendente. Foi com o conteúdo de um desses telegramas que pude descobrir ser possuidor de uma grande capacidade, inata ou adquirida, não sei, de trabalhar com os sentidos da palavra. Me percebi uma espécie de engenheiro, enxergando as estruturas de cada significado e moldando-as conforme minha vontade, dentro de uma linha aceitável, que não chegasse num discurso caótico. Vou explicar melhor, ou tentar…
Em um determinado ponto do telegrama estava algo relacionado a Jesus, só que, escrito com um pequeno desvio àquela que é considerada a grafia correta para o nome de nosso querido mano J.C. Escreveram com Z. Jezus. Quem foi o infeliz que cometeu um erro tão grotesco que uma criancinha que não sabia nem amarrar os próprios cadarços conseguiu enxergar? Estava lá a frase “Jezus te abençõe” ou “Jezus é o caminho” – não entendo como alguém tem coragem de comparar o símbolo central de uma corrente religiosa com uma autoestrada ou uma avenida, caminho é a Imigrantes ou a Anhanguera – ou “Jezus te ama, mas ninguém te come” ou qualquer coisa do tipo, não me lembro. Só me lembro que existia um Jezus. Quem é ateu deve ler esse texto, se Jesus existiu até com Z, porquê não com S?
Lembro que, depois de ler, perguntei para minha mãe o motivo daquele Z onde deveria existir um S. Ela disse que não sabia. A expressão no rosto dela era de quem caiu no assunto, se deixou levar pela pergunta inocente. Tudo teria sido evitado caso ela simplesmente tivesse respondido, curta e grossa, que escreveram errado. Fim do assunto. Mas não… foi dizer que não sabia e despertar um monstro que se encontrava num estado letárgico embaixo de seu próprio teto. Tarde demais…
Mudei completamente meu tom de voz. Minha postura de quem pergunta se transformou inteiramente, agora estava ali, diante dela, uma pessoa que tinha todas as respostas. Aquela pergunta havia sido feita apenas para ver se ela sabia o motivo de terem usado o Z. Não era uma dúvida real, era apenas uma forma de iniciar o assunto. Comecei então, me sentindo a pessoa mais inteligente do mundo, a explicar os motivos por trás da escolha do Z.
O Z é mais barato mãe.
Colou. Pior é que colou. Ela pareceu não acreditar completamente em tal afirmação, mas ficou balançada. Tanto que perguntou se era verdade. Ah, pobre criatura ignorante, perguntar se o que foi dito é verdade para um mentiroso, mesmo que um principiante nessa arte, é algo inútil. Respondi que era sério o que eu acabara de dizer, o Z era, de fato, mais barato. As letras como K, W, X, Y e Z, por serem pouco usadas, eram mais baratas que as letras de maior uso, se aplicam os princípios da oferta e procura basicamente. Expliquei também que, as vogais, eram as letras mais caras, não sabia o preço exato, mas chegavam a custar o dobro das letras de menor procura. E as consoantes, excetuando-se K-W-X-Y-Z, tinham um custo intermediário.
Portanto, queridos leitores, deem preferência ao KY, esqueçam o QI por exemplo…
Claro que minha mentira durou pouco, meu ego estava descontrolado e acabei estravazando todo o convencimento na forma de uma risada, ligeiramente maliciosa, de satisfação. Minha mãe percebeu que era tudo uma mentira – ela não é retardada, né? – e disse algo como “mas é um tonto mesmo” e saiu de perto rindo…
Assim começou meu trajeto nesse mundo de limites ilimitados só para iniciados. Trajeto esse ainda percorrido dia após dia numa incansável busca pela criação de novos sentidos para as mesmas palavras. Uma mentira após a outra. A primeira dor de cabeça para faltar à aula. A primeira morte na família no dia em que perdi uma prova. O primeiro eu te amo. Mentiras que acabaram moldando quem eu sou na verdade.




Esse seu texto me lembra umas crônicas velhas minhas… tanto no jeito de escrever quanto no contéudo. XD
Acho que todo mundo que escreve em determinada fase da vida escolhe um momento da infância e tenta transformar em Literatura, atribuindo um significado especial pra shit toda… (Ou não. Vai ver é um “eu-lírico”)
Mas sei lá essa coisa de crônica ser fissurada em “pequenos momentos”,” lembranças”, descrições de cenas e da “magia” do cotidiano… tem uma hora que fica repetitivo… cansa. Tem uma hora que cansa ser lírico e/ou (auto)biográfico.
A menos que eu tenha uma idéia muito boa , diferente não escrevo mais esse tipo de coisa .
Eu acho.
June 11, 2010 at 14:18
Que bom. (:
June 16, 2010 at 01:30
QUE BOM KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
June 16, 2010 at 23:34
eu-lírico??? coisa de boiola… coisa de macho é eu-cerveja… eu-futebol… eu-mulherada-na-balada… eu-pegando-todas… eu-comendo-churrasco…
brincadeira… e cuidado na resposta… meu QI é maior que o da sua família, com certeza…
outra coisa… davide? não seria David??? ou Davi, como o rei? Porra… nem nome escrito corretamente você tem… e ainda vai criticar o texto dos outros?
E, quanto ao seu blog… bem medíocre…
September 4, 2010 at 10:39
gostei muito e acredito q não há estilo ou assunto desgastado. Há olhares limitados q sempre veem as mesmas coisas, tanto no repetido qto no novo. O olhar é q muda, conforme o leitor de contos – ou principalmente o leitor e artista da vida – age.
December 16, 2010 at 16:23