O LADO DE DENTRO
O barulho do copo batendo na mesa me acorda. Não costumo dormir em público, mas acaba de acontecer. Olho ao redor tentando juntar as peças e lembrar onde estou, não faço ideia. Não reconheço esse lugar. O barman deixou o copo com alguma bebida que não sei qual é – para mim são todas iguais – e foi para outra mesa. Pessoas falando ao mesmo tempo, não dá para ouvir nada além de resmungos. Um ventilador de teto girando devagar e balançando como se fosse cair. Estou no canto esquerdo de um salão, obviamente um bar, mas onde? Pouco a minha frente tem mais algumas mesas, depois já é o balcão onde as bebidas são preparadas. Pessoas sentadas jogando baralho em uma das mesas. Um sujeito cabeludo, barbudo e sujo no outro canto, um mendigo talvez.
O lugar é mal iluminado. A luz mais forte que se pode ver é a que entra pela fresta da porta na entrada. Cheiro o líquido escuro em meu copo. Horrível, não vou colocar isso na minha boca, alguém me traga uma Coca-Cola. Fuço em meus bolsos e percebo que não tenho nenhum dinheiro. Acho melhor eu dispensar a Coca… pensando bem, como vou pagar esse negócio se não tenho dinheiro? Já que vão me trazer uma bebida sem eu poder pagar, pelo menos trouxessem algo sem álcool. Banheiro! Posso tentar fugir pela janela do banheiro, assim não vão criar caso por eu não ter dinheiro. “Bartender, por favor!”, O sujeito careca de uns quarenta e poucos anos me escuta e vem ver o que motivo do meu chamado. Um colete preto sobre a camisa branca, calça social preta e sapatos que brilham mesmo com a luz fraca do ambiente. “Em que posso ajudá-lo, senhor?”, “Ah, oi. Pode me dizer onde fica o banheiro?” a voz do sujeito era rouca e me lembrou o cara que narra os trailers que passam no cinema antes do filme principal. “Coming soon”. “Não tem banheiro aqui. Mas confie em mim, não vai precisar”. A informação da ausência de um banheiro me incomodou, resolvi tentar contornar a situação contando a verdade, bem quase isso… não posso simplesmente dizer que não tenho dinheiro, é o motivo que falta pra esse careca chamar algum segurança e os dois me levarem para fora pela porta dos fundos e me quebrarem as pernas, ou pior, vai que tentem me prender no estoque e eu vire vítima de dois estupradores pervertidos, posso parecer exagerado mas todo cuidado é pouco. Melhor evitar riscos desnecessários. “Eu não pedi essa bebida, pode levar embora por favor”, “Sei que não pediu, não se preocupe. Cortesia da casa. Só queremos que se sinta confortável por aqui considerando que sua estadia pode ser longa”, estadia longa? Como assim? Sinto uma gota de suor escorrer por trás de minha orelha, a primeira de muitas provavelmente. Minhas mãos estão inquietas, começo a bater com os dedos na mesa. Nervosismo. Levo a mão aos bolsos novamente. Não encontro dinheiro e percebo outra coisa. Algo que deveria ter notado logo de cara. Não é só o dinheiro que não consigo encontrar, meus documentos também sumiram. Não tem nada – nem um pedaço de papel, um cartão telefônico, um chiclete mascado que seja – nos meus bolsos. Eu deveria ter percebido antes, preciso mais do que nunca dos meus documentos. Como pude ser tão cego ainda não sei, mas fui. Preciso mesmo ver minhas coisas de novo, nem que seja só por um instante. “Ok, ok… Não estou entendendo direito o que quer dizer com minha estadia aqui ser longa, mas tenho uma pergunta pra você antes disso”, “Pode dizer, senhor”, “Qual meu nome?”.
Normalmente as pessoas perguntam os nomes de seus interlocutores numa conversa, ele disse, não o contrário. Como posso saber o seu nome? Seu nome é seu, não é? Você que deveria me dizer como se chama, não o inverso.
Resolvo perguntar o nome do garçom careca e ele começa a rir, pergunta qual é o motivo dessa minha fixação por nomes. Diz não saber seu nome também, sabe que tem um nome, só não sabe qual é ainda, afirma que na hora certa lhe será revelado como se chama, mas não é o momento ainda. Me avisa para deixar para lá e tomar alguma coisa, diz que às duas da tarde servirão o almoço, olho para a parede atrás do balcão, uma prateleira com várias garrafas e mais acima um relógio de parede, seis horas, noite ou dia não sei, não tem janelas. Pergunto que dia é hoje e escuto a risada do maldito careca. “Boa sorte com isso, mais fácil descobrir o nome das pessoas”.
Tento me levantar. Em vão. Minhas pernas não me obedecem. Droga… mais um detalhe que deveria ter percebido antes. Não sinto minhas pernas. Nem um formigamentozinho, nada… Não posso andar. As pessoas nas outras mesas continuam o que estão fazendo. A mais próxima é composta por quatro moleques e um baralho. O baralho parece ter mais vida que eles, todos estão bebendo menos um que tem em suas mãos uma garrafinha de água. Se o moleque pode ter água talvez eu tenha sorte com minha Coca. Truco, eles gritam. Riem e berram. Brigam e berram. Riem novamente. E berram mais uma vez. Três deles parecem meio apagados, mas um chama minha atenção. É maior que os outros. Maior em todas as direções, parece ser mais alto e é visivelmente mais gordo também. Mesmo parecendo meio desengonçado ainda se destaca. Parece ser o mais importante da mesa. Preto. O líquido no copo do desgraçadinho é preto. Como esse filho da puta conseguiu Coca? Eu quero…
Fico com medo de chamar o garçom mais uma vez. Ainda não entendi o que está acontecendo aqui, melhor ficar sozinho por um tempo e observar as coisas. Inferno, eu mataria por uma Coca agora. O gordo idiota com o copo que deveria ser meu não sorri, continua jogando com seus parceiros, amigos ou seja lá o que eles são. Não parece estar gostando de estar naquele lugar tanto quanto eu. Na ponta do balcão tem algo que não tinha percebido até então – pelo jeito hoje estou deixando muitas coisas passarem despercebidas. Tem um pinguim em cima do balcão. Mas ele está segurando um copo também! Um pinguim bêbado?!? Cada segundo que passa nesse lugar me faz entender menos sobre o que está acontecendo. Perto da porta tem um carrinho com dois bebês, eles são magros e brancos. Raquíticos e pálidos na verdade. Não choram. Não se mexem. Não fazem barulho. Não respiram! Dois bebês mortos. Era o que me faltava.
No canto oposto ao que eu estou sentado tem uma outra pessoa um tanto quanto estranha também. Está sentado no chão. Usa algo parecido com um roupão de banho e seu cabelo é comprido, preso em um coque na parte de trás da cabeça. Ele parece estar esperando por algo. Suas mãos descansam sobre duas espadas, uma mais curta que a outra. Um samurai? Malditos japoneses…
Tem várias outras pessoas por aqui, mas não chamam tanta atenção. Outros como os que já comentei, chamam atenção até demais. Um que me deixou curioso é o carinha que falava sozinho. Foi o único que vi sair daqui. Ele bebia e resmungava alguma bobeira do tipo “apenas beba, grande idiota” será que é isso que preciso fazer para poder sair daqui? A porta da frente se abriu enquanto esse cidadão conversava com seu amiguinho imaginário, ele se levantou e saiu andando. Mal pude enxergar o lado de fora. Era apenas um clarão. Uma luz branca cegante. Brilhante.
O pinguim bêbado parecia irritado, pegou uma garrafa e bateu na cabeça de um homem que estava ali perto, a garrafa se quebrou. O pinguim continuou seu ataque. Cortou a garganta e olhou sua presa até que sangrasse até a morte. O medo toma conta de mim, queria conseguir correr, sinto o olhar daquele monstrinho prestes a me encontrar. Serei o próximo a ser morto pelo pinguim assassino. Ele vai roubar uma espada do coreano sentado ali no canto e vai me golpear enquanto grita – ele bebe e mata, falar não me surpreenderá – “morra, aleijado imundo!”.
Enquanto prestava atenção nos feitos daquele pinguim não percebi o mendigo vindo em minha direção. Puxou uma cadeira e começou a conversar comigo. Disse para eu me acalmar. Só precisava ter fé, pois nada aconteceria se eu acreditasse. Nada poderia me ferir se eu acreditasse nisso. Não levei muito a sério mas uma promessa, mesmo que falsa, de salvação já é melhor do que esfaqueamento por pinguim. Ele continuou falando e, surpreendentemente, sua voz me acalmava. Suas palavras tinham força. Eu sentia que caso ele mandasse eu me levantar eu sairia andando como se minhas pernas fossem curadas por mágica. Aos poucos fui falando também, mas nada muito importante. Eu tinha várias dúvidas sobre onde estava, as dúvidas continuaram, nem mesmo ele e suas palavras tão poderosas poderiam responder minhas perguntas. Ele disse não saber onde estávamos também e algo sobre a última vez que ele esteve em um lugar desconhecido assim foi há muito tempo atrás, mas só durou três dias e ele já voltou a vida, mas dessa vez por alguma razão estava levando mais tempo. Disse também que as pessoas iam e vinham o tempo todo. Alguns ficavam por alguns instantes como um tal apresentador de talk show que sempre tomava sorvetes e já iam embora. Outros, como ele mesmo, ficavam por anos. Me disse também que o único que poderia tirar minhas dúvidas era o cozinheiro. Era ele, o tal cozinheiro, que estava aqui há mais tempo, mas ninguém nunca conseguiu falar com ele. Diz a lenda que o pinguim foi o segundo a chegar no bar. Mas ele não é de muita conversa também. Os outros foram aparecendo mais tarde e, eventualmente, indo embora. Estava decidido, precisava achar uma maneira de ver o cozinheiro.
O mendigo foi embora, disse que tinha que dar atenção para seus outros alunos, será que ele foi um professor ou algo do tipo antes de chegar aqui? Ele se sentava em um canto com uma taça de vinho e quase todos se juntavam para ouvi-lo, pareciam gostar das conversas com aquele sujeitinho mal vestido.
Chamei o garçom novamente. Ele veio e trouxe uma Coca mesmo eu não tendo pedido. Finalmente algo que preste aconteceu nesse lugar. O refrigerante gelado desce gargante abaixo, o nariz e os olhos ardem um pouco. Meu corpo ganha força. Me sinto vivo. O garçom continua parado me encarando, acho que esperando para saber o que eu queria quando o chamei. O prazer ao tomar a Coca quase me fez esquecer o motivo real de eu ter gritado o garçom. Peço que ele me leve ao tal cozinheiro. Pela primeira vez ele parece perder a paciência, mesmo não tendo em momento algum me dado alguma resposta, ele foi educado o tempo todo. Agora não, parecia seco. Seu tom de voz estava diferente. Acho que ele é o único ali dentro que colocaria medo no Happy Feet from hell. Me disse que não faria isso, ninguém fala com o cozinheiro. Saiu andando. Eram quase duas horas, a não ser que seja noite está perto da hora de servirem a comida. A janelinha atrás do balcão que liga o salão principal com a cozinha se abriria na hora de entregar os pratos. Olho para o relógio na parede e vejo cada segundo passando, não pisco. A contagem regressiva está em andamento, aquela porta se abrirá e eu verei quem é o cozinheiro, vou chamar o maldito e fazer ele falar comigo.
Duas horas. A porta se abriu. Vi um vulto. A porta se fechou. Comi meu bife com batatas fritas. Encostei o rosto na mesa mas não consegui descansar, não tem como eu dormir sem saber o que está acontecendo. E pelo jeito os outros também parecem não descansar muito já que me lembro de ter olhado pro relógio pela primeira vez às seis da manhã e todos eles já estarem aparentemente despertos há muito tempo.
Vinte e quatro horas e terei minha chance de ver o cozinheiro mais uma vez. Olho para o relógio. Só mais oitenta e seis mil trezentos e poucos segundos restantes… O tempo passa. Hora do almoço. A porta irá se abrir e dessa vez eu definitivamente irei… droga… em vinte e quatro horas terei minha terceira chance.
Dois meses se passaram e consegui ver um rosto, nada muito definido mas já acho que é algum avanço. Dois meses e minha única razão para viver é esperar o relógio marcar duas horas. Objetivos bem pequenos os meus. Patéticos. Melhor desistir. Bebo mais Coca. O garçom sempre traz mais um copo, no começo demorava mais, mas agora ele já se acostumou comigo, é só ver meu copo chegando ao fim e ele já vem com um novinho em folha,cheio até a borda. Falta menos de um minuto para o horário do almoço. Pego o copo, fecho os olhos e bebo. Não vou olhar dessa vez. Não quero mais tentar entender. Dessa vez eu consigo ver.
Magro, muito magro. Praticamente dois metros de altura. Uma roupa branca. Uma bota preta feita de couro. Um avental escrito “Kiss the Cook!” cheio de respingos de sangue. Uma máscara, também branca, cobrindo a boca e o nariz. Os cabelos são compridos e despenteados. Espetados. Um caos. Ele deveria usar uma touca, eu acho. Ele olha para mim. Seu olhar é de dar medo, o tipo de olhar que congelaria o inferno. Ele fecha a janela. Eu abro os olhos.
Fico pensando se foi só minha imaginação, se ao fechar os olhos enxerguei uma ilusão. Lógico que o tal cozinheiro não seria aquela figura perturbadora. Ou talvez não, não vou colocar minha mão no forno nesse antro de loucuras. O garçom vem em minha direção sem nada nas mãos. Sua expressão é séria. “Não sei o que você fez… ele vai te ver”. Demorei para entender o real sentido de suas palavras, só quando ele me levantou e saiu me carregando é que percebi que eu seria o primeiro a ver o tal cozinheiro. Fiquei feliz com a possibilidade de ter minhas dúvidas resolvidas depois de meses aqui dentro. O garçom me deixa em frente a uma porta e diz que ali é o mais perto que chega da cozinha. A porta se abre aparentemente sozinha. Estou sentado no chão, se minhas pernas obedecessem seria bem mais simples.
Me arrastei porta adentro e vi a figura de antes. Não foi minha imaginação, aquele era, de fato, o cozinheiro. A porta atrás de mim se fechou. Vi atrás do cozinheiro uma outra porta. A sala em que nós dois estávamos era pouco maior que um elevador. Extremamente apertada e tão branca quanto o lado de fora do bar parecia ser. Perguntei que lugar era esses, afinal. Ele disse que me contaria, mas, antes, queria me mostrar algo. Segurou um de meus braços e me arrastou no chão para perto da outra porta. Pegou uma chave do bolso de seu avental e a destrancou. Me pediu que prestasse atenção. Abriu a porta e pude ver um céu esverdeado. Um frio congelante entrava. Um cemitério. Vários túmulos enfileirados. Os túmulos se perdiam no horizonte de tantos que eram. Milhões provavelmente, falei. Muito mais segundo o cozinheiro. Ele fechou a porta a chave novamente e voltou a conversar comigo. Disse o lugar onde nos encontrávamos e não consegui acreditar.
“Como pode perceber estamos em um lugar nada convencional”, “Ainda bem que me avisou, nunca imaginaria algo assim”, “Ignorarei sua piadinha mas tente ficar quieto se não tiver nada para dizer”, sua voz era bem séria, resolvi aceitar seu conselho e calar a boca. “Onde realmente estamos não tem um nome, não ainda pelo menos”. Ele explicou o motivo de não termos, nenhum de nós, nomes. Não somos reais, eu e você não existimos. Nenhuma daquelas pessoas ali fora existe. Não consegui entender o que aquilo significava mas, aos poucos, as coisas foram ficando mais claras. Aqui dentro, onde eu fico, é, nada mais que, o lugar onde ficam guardadas as ideias, algumas evoluem, outras não. O lado de fora, onde você e os outros estavam, é onde ficam os personagens que poderão dar certo em algum momento. Ideias? Personagens? Os personagens que não vingaram vão para aquele cemitério que você viu agora a pouco… aqui é onde as histórias tomam forma. Eu sou o responsável por juntar os ingredientes, as ideias e os personagens. O problema é que não existe receita, então algumas vezes dá errado. Mas algumas vezes, mesmo que poucas, o sabor é maravilhoso. Você não existe, só é uma possibilidade, mas agora que sabe a verdade terá que sair do bar. Não sou eu quem diz se você vai para o cemitério junto com os outros tantos mortos ou se vai ter suas próprias páginas. Não cabe a mim dizer, eu só posso tentar juntar algumas peças, mas você é que dará vida – mesmo sem tê-la de fato – a sua própria história. Cabe a você decidir se irá para o cemitério do esquecimento junto com milhões de projetos que deram errado ou foram abandonados ou se sai e ganha voz. Você passou meses do lado de dentro da cabeça do autor, agora é hora de ir para o lado de fora na forma de um amontoado de palavras.
Era coisa demais para minha cabeça, parecia muito absurdo, muito exagerado. No fundo eu sabia que era a verdade. Provavelmente sempre soube. “Antes de ir embora então pode me responder mais uma pergunta?”, o cozinheiro balançou a cabeça dando permissão para minha última questão.
“Só tem homens no bar, qual a razão disso?”, perguntei.
“Não importa quantas histórias diferentes sejam contadas, quantos personagens novos sejam criados ou copiados de algum lugar. Sempre serão homens, quer saber o motivo para que isso seja assim? É simples meu caro dissimulado… As mulheres das histórias, independente de seu roteiro, são sempre as mesmas. Não importa como sejam descritas, é sempre a mesma coisa. É sempre igual. Só existe uma mulher em todas as histórias. Ela é única e assim será em todas as próximas ideias que virão a sair desse lugar”.




Nem li, bjs
September 17, 2010 at 16:38
É o melhor de todos…
December 16, 2010 at 19:02
eu adorei esse *-*
December 17, 2010 at 04:49