Eu, de novo
E seu coração virou esterco… Assim começa nossa (in) feliz história. Difícil dizer ao certo o motivo de tal mudança, ainda mais por jogar tal afirmação antes mesmo de apresentar nosso herói. Mas como se sabe, motivos nunca servem para nada, a explicação – quando existente – não muda um fato que já aconteceu.
Agora me diga, querido leitor de capacidades intelectuais duvidosas, essa transmutação de um simples órgão, vazio, completamente oco, em algo tão útil como um monte de fezes curtidas foi literal ou foi culpa do narrador – conhecido em certas culturas como Eu – por fazer uma metáfora tão mal feita? Pois bem, acredite no que quiser, logo notará a verdade. Ou não, não depende de mim.
Vamos ignorar por um instante a confusão e as dúvidas encontradas até então, deixe isso para aqueles que se importam com explicações ou com o falso racionalismo que é quase tão belo quanto o falso sentimentalismo, e voltemos a mudança, física ou não, do coração em esterco. Qual o motivo para tal acontecimento? Mais uma vez não tem a resposta, não é? Talvez a ordem inversa dos fatores básicos o impeça de perceber a verdade, a tão simples e super estimada verdade. É como construir uma casa começando pelo telhado, me perdoe por cair no senso comum e usar frases feitas – muito mal feitas por sinal – mas é a verdade, só não enxerga quem não quiser. Voltemos então ao início, vamos falar um pouco sobre nosso herói, anti herói, protagonista, antagonista ou o diabo que seja.
A pessoa em questão não possui um nome, nomes são íntimos demais, mas esse é outro assunto, creio que tal pessoa não tenha um rosto também, pelo menos não um rosto fixo, acredito que o rosto dessa pessoa esteja em qualquer espelho pelo menos uma vez na vida, seja na solidão da própria casa ou em um maldito hotel barato. Vamos nomear essa inominável pessoa então, assim como a quem vos narra o texto, com o título: Eu. Mas não um simples eu, acredite na diferença de um eu qualquer para Eu. Eu é sempre o centro das histórias, sejam comédias, dramas, romances ou suspenses. Eu nem sempre acaba bem, muito pelo contrário, na verdade leva ferro de todos os lados com uma frequência maior do que a desejada. Eu é genial, Eu não pensa, Eu é burro. E o mais importante de tudo, Eu é sempre sozinho. Enfim, o personagem será simplesmente Eu.
Agora que já sabe que Eu é o centro dessa história também, como sempre, já podemos nos fixar na sequência dos fatos. Tudo começa em um dia chuvoso, na verdade não chovia, mas histórias que começam com um dia chuvoso são sempre mais trágicas e depressivas, o que combina perfeitamente com o presente Eu. Então pro inferno a verdade, estava chovendo e ponto final. No fatídico dia chuvoso, estava Eu e outra pessoa – por mais que Eu seja singular sempre tenta estar acompanhado, acho que essa luta contra a natureza individualista do Eu que cause tantos problemas para Eu – sentados em um lugar qualquer, detalhes não são importantes, não é uma investigação policial, ninguém morreu ainda, não precisa saber como era o lugar ou como eram as pessoas, já conhece o mais importante que é Eu. Notando a extensão dessa narrativa percebo que Eu tem também a capacidade de enrolar para contar algo tão simples e bobo.
Retomando pela milésima vez… Eu e outra pessoa, vamos chamá-la de Ela, estavam sentados em um canto qualquer, não um espaço privado, mas um local público, outros seres quase pensantes dividiam o espaço físico, embora estejam em outro mundo mentalmente, então Eu e Ela não puderam ter sossego, mas mesmo assim tentavam conversar. O assunto de tal conversa durou dias, ia e voltava, novos pontos eram acrescentados, novos problemas surgiam, novas dúvidas se multiplicavam mais que mil coelhos injetados com Viagra. Falar sobre o que Eu e Ela conversaram é redundante, nem Dostoiéviski teria saco para escrever tanto, e nem ele conseguiria criar um drama tão perfeito. O resultado daquilo que nem sei se pode ser chamado de conversa foi o motivo para a inicialmente citada metamorfose de ventrículos em merda. Dados os novos fatos nota-se que a construção inicial não foi literal, o esterco não é real, nem o coração, mas o sentido acaba se tornando mais amplo e sério. Com poucas palavras ficou claro tanto que foi uma figura de linguagem a transformação quanto o fato de o motivo para a matáfora inicial ter sido uma conversa, palavras tão vazias e ao mesmo tempo tão cheias de significado, coisinhas tão banais que podem mudar a vida de uma ou mais pessoas, assim são as desgraçadas das palavras.
Agora o estrago está feito, não tem muito o que se dizer, não dá pra lutar contra as palavras, mesmo que elas tenham sido usadas apenas para esconder um sentimento (muito bom por sinal), a palavra final sempre é lei. Não há razão ou emoção que possam ir contra a palavra. Não importa o que é real. Não importa o que poderia ter sido melhor. Só resta para Eu sentar,chorar, amaldiçoar a Deus, deitar e se deixar levar pela chuva imaginária direto para algum bueiro.
Apesar de tudo sempre existe o lado positivo, embora tenha que fazer um esforço devastador para enxergá-lo nesse caso, a palavra não é algo constante, ela muda, muda de forma, muda de tom, muda de significado. Sem falsos moralismos, mas ainda com uma pequena porção de esperança/ilusão. Saiba que Eu provocou a situação, Eu mereceu todos os sentimentos ruins e, com certeza, Eu não culpa Ela por nada disso… E não é que foi o que aconteceu? Eu foi levado diretamente para um bueiro, onde os restos de alimentos e os cadáveres de animais em decomposição se juntavam a seu corpo, Eu agora também estava apodrecendo, deixando um braço ou outro pelo caminho bueiro abaixo Eu ficou em milhões de pedaços e acabou virando apenas mais uma das muitas palavras, o pior de tudo é que Eu é uma palavra que não tem sentido algum, pelo menos não agora.




*_* mto legal. Quer dizer, totalmente fodido, mas mto legal.
Mas como dizem os frequentadores de fórum que não dão a mínima pro que outra pessoa tem a dizer: “Sad story bro.”
Kidding. =x.
April 28, 2010 at 16:33
Sad Story Bro.
Um dos meus favoritos, confesso.
April 29, 2010 at 17:33
Hoje não precisa ser mais assim, tento cuidar p/ que não vire o esterco esper que tentativas válidas mais?? Te amo muito
December 16, 2010 at 19:06