VERBORRAGIA
– Teve uma verborragia, mãe!
– Que? Você quis dizer hemorragia, né?
– Não, não… Verborragia mesmo…
– Como assim? Tá louco menino?
– É sério. Sofreu um acidente e escorreu até ele quase morrer…
– Chama hemorragia quando o sangue vaza desse jeito. HE-MO…
– Não foi sangue.
– Aiai, cada uma… foi o que então?
– As palavras!
– …
– Tá com essa cara por quê? Hein, mãe?
– Nada. Tô ocupada, não tenho tempo pra besteira.
– Não é besteira… Você tinha que ter visto… As palavras foram rolando, rolando, rolando. Daí começaram a escorrer em um bueiro.
– Insiste em me chamar de você… não tem respeito mesmo esse moleque.
– Aí o bueiro tava entupido, né? Por causa do monte de lixo que todo mundo joga no chão… por falar em lixo no chão, já viu quanta ponta de cigarro as pessoas más jogam? É muita porquice isso. Não percebem que fumar é errado?
– …
– Aí, né, por causa do montão de lixo que tinha, acabou que entupiu tudo. Tudinho, tudinho entupido. As palavras começaram a se amontoar no canto da calçada, teve até uma gorda que quase caiu quando pisou em um S sem ver e escorregou…
– Onde aprendeu a mentir desse jeito? Fica contando essas histórias que ninguém vai acreditar em você depois…
Horas e horas e mais horas… muitas horas. A tentativa de diálogo continuou por mais algumas. Cerca de vinte e sete mil horas. Passado esse tempo, pouco mais de três anos, finalmente o garoto percebeu que também sofria de verborragia. Mas a dele demoraria mais para matá-lo. As palavras saiam e saiam mas não faziam nenhum sentido para ninguém. O mais interessante é que ninguém notava. Claro que não tinha como perceber… tratava-se de uma verborragia interna.



