UM DIA RUIM
Acredito que seja um assunto há muito saturado, mas será que realmente existe o mal dentro de cada pessoa como dito nos trabalhos de Maquiavel? Nunca parei, até alguns instantes, para pensar nisso. Agora sei que sim, existe! E como existe…
Não vou fingir não saber o que me fez pensar nessas coisas, só não sei definir o sentimento. Não é arrependimento, não é remorso… mas comecei a pensar nisso depois de ter feito algo que pode ser considerado como ruim.
Uma das coisas que li em minha infância foi a história The Killing Joke, escrita por Alan Moore. Nessa revista o personagem Curinga tenta provar que para que alguém se torne um maníaco é preciso nada mais do que um dia ruim. Foi só uma historinha do Batman na época, hoje vejo que significa muito mais do que apenas isso.
Nunca fui uma pessoa violenta. Mas nunca tive muitos amigos também. Na escola sempre implicavam comigo e nunca disse nada. Diferente da maior parte das crianças, nunca me meti em uma briga. As vezes, depois de mais velho, discutia verbalmente, mas nada sério. Na adolescência meus amigos ficavam com as garotas que eu pretendia ficar e eu não reclamava apesar de achar ruim. Não tive a mais popular das vidas, mas não foi diferente da infância e adolescência da maioria das pessoas.
O cachorro do vizinho sujando minha calçada todas as manhãs me irritou sempre. Nunca reclamei. Simplesmente pegava uma mangueira e jogava água para tirar a merda deixada para trás. Os comentários idiotas feitos durante as aulas na faculdade me incomodavam profundamente, tanto os puxasaquismos quanto as burrices em geral. Sempre fiquei em silêncio, ignorava os comentários e continuava fazendo minhas coisas.
No trabalho sempre fiz vinte vezes mais coisas que os outros funcionários e recebia metade do mérito que era dado para eles, nunca reconheceram nada que tivesse feito. Normal, não posso me queixar. Se estou insatisfeito é só eu pedir para sair, ninguém é obrigado a ficar em um emprego que não gosta. Mas há consequências. Quem precisa do emprego, qualquer que seja o motivo, tem que se assujeitar a situação, o que não considero injusto e muito menos razão para greves ou idiotices do tipo.
Já me incomodei com muitas coisas, já fui enganado, já fui traído de todas as formas imagináveis, já fui feito de idiota, já fui maltratado… a lista é praticamente infinita. Nunca respondi à essas coisas de forma negativa, o máximo que acontecia era ficar triste e quieto até passar. Um mau humor normal.
Acordo sabendo que encontraram um problema relacionado ao meu curso, o que vai impossibilitar sua conclusão. Pouco depois escuto sobre um corte de despesas necessário, sou obrigado a dizer adeus ao emprego. Assim começa o tão temido dia ruim. Tento conversar com as pessoas que acreditei se importarem comigo, não é uma grande surpresa perceber que aqueles de quem eu mais esperava apoio sumiram ou me ignoraram. Um dia ruim é tudo que é preciso para deixar alguém louco.
Lá pelas dez da noite, quando cheguei em casa da aula, vi que estavam fazendo uma festa na casa do vizinho – nem é festa, é um daqueles churrascos com carne vagabunda e gente bêbada. A música estava alta… e quando digo música quero dizer esses funks de favelado, sem nehum conteúdo que preste. Resolvi fazer algo a respeito, pedi para que diminuísse o som. O idiota estava bêbado, claro, disse que não diminuiria nada, para eu ficar quieto e entrar em casa se não quisesse arrumar confusão.
Entrei. Sentei na sala e esperei. Estava irritado. Muito. Fui até o banheiro e peguei a boa e velha navalha enferrujada, lembrança do meu avô que a usava para fazer a barba. Ficou por anos esquecida dentro de uma gaveta. Naquela hora me lembrei da navalha. Desde esse dia não escuto um barulinho de música da casa do meu vizinho. E o cachorro também não faz mais nada em frente meu portão. Esperei. Esperei. Esperei.
Eram pouco mais de duas da manhã quando começaram a ir embora os convidados de meu vizinho. Eram poucas pessoas, foram indo embora e mais ou menos uns quinze minutos depois ele se despedia do último e entrava em casa.
Fui até a porta da frente e toquei a campainha. Ele talvez tenha achado que era alguém voltando para buscar algo que esqueceu ou algo assim, já que não olhou ou perguntou quem era antes de abrir a porta.
Plexo solar. Famosa boca do estômago. Um soco nessa região pode até causar a morte, pelo menos foi o que li. Não custava nada tentar. Meu vizinho ficou curvado com a dor do soco e parecia ter dificuldade para respirar. A vantagem de bater nessa região é que não deixa marcas, essa era minha intenção inicial, não deixar evidências da briga. Comecei a bater repetidamente na lateral de seu corpo, outra área que não deixa marca, local preferido de pais que abusam fisicamente de seus filhos por não chamar atenção como um olho roxo. Ao dar socos nessa parte do corpo acerto o fígado, o que faz várias terminações nervosas do corpo paralisarem, a pessoa simplesmente fica sem reação, só consegue sentir dor e medo. Continuo batendo no mesmo lugar por um tempo. Tive que tomar o cuidado de deixá-lo contra a parede enquanto batia, ainda não era a hora dele cair, precisava dele de pé, mesmo que parcialmente. Me afastei depois de um tempo e o deixei cair no chão, de bruços. Achei que seria o suficiente para ele nunca mais me incomodar. Mudei de ideia e resolvi continuar. O motivo para isso é simples, confesso que a sensação foi ótima, me senti vivo enquanto batia no desgraçado. Dessa vez preferi deixar de lado minha intenção original de não deixar marcas, decidi apelar para algo que faria com que ele levasse muito mais tempo para se recuperar. Fisicamente a recuperação seria rápida, mas psicologicamente nem um pouco. Peguei a navalha do bolso e puxei a cabeça dele para trás pelos cabelos. Comecei a raspar sua cabeça, ele fazia alguns barulhos de dor, mas ainda não tinha folego para gritar, muito menos para reagir. Raspar a cabeça não foi o suficiente, queria mais. Puxei sua cabeça mais ainda, de forma que ele conseguisse me ver. Ainda com a navalha, raspei suas sobrancelhas, passei a navalha duas vezes, deixando completamente liso. Se recuperar de uma humilhação não é algo fácil, talvez nem tenha como fazer o sentimento passar por completo, era isso que eu queria. Agora sim estava completo o serviço. Mas senti um vazio. Ainda queria mais.
Fui até a cozinha sem ideias do que fazer. Olhei o jogo de facas de cortar carne, aquilo poderia ser divertido. Em uma bancada perto da porta da cozinha estavam algumas ferramentas jogadas, um martelo, poderia quebrar todos os seus dedos, talvez umas marteladas bem dadas nos joelhos e nos testículos. Não… continuei olhando, uma serra elétrica, não queria uma nova versão do filme The Texas Chainsaw Massacre. Fui até o banheiro e abri o armário, óleo de rícino… nem sabia que ainda existiam essas coisas, acreditava que lacto-purgas e afins já tivessem tomado conta do mercado de fezes. Estava resolvido qual seria o próximo passo para minha demonstração de insatisfação ao meu vizinho. Enfiei o vidro na boca dele, não foi fácil, não quis cooperar, precisei bater mais um pouco. Dessa vez chutei as costas à altura dos rins, no fim das contas não teve como resistir, precisou beber todo o conteúdo do vidro. Junto as ferramentas jogadas no chão havia uma corda, o que foi muito útil também.
Forcei meu vizinho a tirar toda a roupa, amarrei seus braços e pernas. Procurei as chaves de seu carro, estava com pressa, não queria que o efeito do laxante acontecesse antes da hora. O joguei dentro do porta-malas do carro e fui em direção ao centro da cidade. A essa hora da madrugada o centro estaria completamente vazio, exceto pela presença de alguns traficantes e travestis se prostituindo. Procurei um lugar vazio, longe dos olhares de qualquer pessoa. Ali eu terminaria de extravasar minha raiva. Abri o porta-malas e o joguei no chão. Dei mais alguns chutes enquanto estava caído, acertei algumas vezes os testículos. Tinha certeza de que ele não conseguiria se levantar tão rápido. Em um gesto de bondade soltei as cordas de suas pernas, assim ele poderia ir embora quando conseguisse se levantar. Já eram quase cinco da manhã, em pouco tempo amanheceria. Ele levaria pelo menos uma hora para conseguir andar direito, sua casa fica a pelo menos uma hora de caminhada em condições normais. Careca, sem sobrancelhas, pelado e todo cagado. Não esqueça também que ele estava em um churrasco, então o bafo de pinga não sumiu por completo, mesmo depois de tudo que fiz. Ninguém se aproximaria para ajudar. Ele teria que ir embora por conta própria, aguentando os olhares de desprezo e as piadas do povo na rua.
Fui embora para casa. Tomei um copo de coca-cola e deitei. Tive as melhores horas de sono da minha vida. Acordei renovado.
Como disse, o mal está em todo mundo. E como Alan Moore escreveu em 1988, um dia ruim é o suficiente para que alguém normal deixe sair o monstro que está em estado de descanso.




esse me deu medo ): mimi* kkkk mas é muito bom!
December 17, 2010 at 04:55