CASAS ASSOMBRADAS
Ela acordava no meio da noite com os barulhos. Dizem por aí que no campo não há os barulhos da cidade, que em lugares afastados como fazendas, por exemplo, não existem ruídos que atrapalhem uma boa noite de sono. Essa é, de fato, uma grande mentira. Os barulhos que o silêncio produz são muitos. Claro que estava assutada quando acordou, tinha pouco mais de uma década e meia de vida, muito nova para pensar que sabe tudo, muito velha para não ter descoberto que sabe, talvez não tudo, mas tudo o que precisa.
Não tenha medo, criança… repetia a voz pela sabe-se lá qual vez. Já faz anos que o dono da voz repete essa frase para ela, assim como faz anos que, no meio da noite, os olhos verdes e grandes aparecem aos poucos dentro do quarto, fazendo sua figura aparecer no meio da escuridão. Eram apenas os dois, e isso bastava. Por algum motivo ela sempre se sentiu sozinha, até que ele apareceu. As barulhentas noites silenciosas pareciam ficar mais curtas quando estavam juntos, tudo era, de certa forma, mais simples. Conversavam até que ela pegasse no sono. Hoje não seria diferente. Não tenha medo, criança…
Naturalmente o relacionamento dos dois ficou mais forte a cada dia que passou. Eram praticamente simples conhecidos, passaram a ser amigos, até que chegaram a ser confidentes, hoje creio que sejam o que há de mais importante um para o outro. Mesmo algo tão forte assim acaba desgastado, afinal, são mais de dez anos juntos… no momento ficar apenas os dois não era o suficiente. Ele se sentava quieto em um canto, tomava seu sorvete, sua pele amarela parecia desbotar com a iluminação do quarto. Ela queria falar, mas não sabia o que dizer. E foi ficando cada vez mais triste. A tristeza, obviamente, aumentou exponencialmente. É até difícil descrever como cresceu. E foi assim, nesse momento de tristeza extrema, que surgiu uma terceira figura na história dela.
Enquanto o outro olhava para o nada até pegar no sono, esse novo personagem pareceu perceber a tristeza nos olhos dela e, com sucesso, tentou ajudar. Conversaram em voz baixa, para não acordar o amigo amarelado, ele anda cansado ultimamente, disse ela. A tristeza acabou diminuindo, me arrisco a dizer que a tristeza sumiu. Eram só os dois novamente. O terceiro elemento foi embora sem dizer quando voltava ou como chamá-lo caso precisasse de algo.
Mais noites passaram, algumas vezes os dois até se arriscaram a sair da fortaleza imaginária que representava aquela casa. Ele não conversava com mais ninguém, apesar de ser extremamente carinhoso com ela, parecia ser antissocial com o resto do mundo. Confesso que ela nunca entendeu e pelo jeito até se incomodava um pouco com isso. As visitas ao exterior da casa aumentaram, assim como os riscos de se machucar. Ele disfarçava, mas andava impaciente, preocupado. Sabia que as saídas iriam machucá-la, chegava a pensar em prendê-la apesar de saber que nunca teria coragem para algo assim.
Existem coisas que são impossíveis de acontecer, outras são improváveis. Ao subtrair o improvável do impossível temos o que aconteceu: o inevitável. Com tantas saídas do castelo auto-imposto, os perigos realmente a alcançaram, não houve escapatória, ele tentou salvá-la e fugir o mais rápido possível, mas o dano já estava feito. Ela estava machucada, ele sabia que isso aconteceria e não conseguiu evitar, se culparia para sempre por isso. Ela apenas chorava. Ele, foi embora descansar. Ela, ficou sozinha deitada. A cama parecia tão grande, ela que era pequena parecia diminuir naquela cama. A cama crescia a seu redor até que não restasse mais nada, o horizonte era composto pela estampa mais do que ampliada dos lençóis. Ao longe surgia novamente a mesma pessoa que ajudou da outra vez. Ele estava careca, será que da outra vez já era assim? Ela não se lembrava, eu que nem lá estava muito menos, provavelmente era careca sim desde a primeira vez.
Conforme conversavam a cama diminuia, ou ela crescia, algum desses dois. Tudo começava a voltar as proporções normais. As feridas dela começavam a parar de doer, com certeza deixariam marcas, mas o incomodo já não era o mesmo. Enquanto conversavam o outro regressava de seu cochilo. Parecia sem rumo, por causa do calor sua pele parecia brilhar, era um dourado estranho, se estivesse escuro acho até que iluminaria a casa. Os três se olharam por um tempo. Nenhuma palavra. Ela estava bem, era o suficiente para fazer os dois não quererem se matar ou brigarem para ver quem fica com ela. O mais importante já aconteceu, ela estava bem!
Talvez pareça estranho tudo isso, mas não é. Isto não foi nada além de um muito breve relato sobre como algumas casas são assombradas. Um resuminho sobre a rotina de uma menina sozinha, que acabou percebendo que não é preciso ter medo dos fantasmas. Eles não estão lá – geralmente – para te machucar. Não tema. Deixe-os brincar a vontade, alguns barulhos no meio da noite não são de todo mal, para você pode ser um problema, uma perturbação, para ela foi a única coisa que fez sua casa se tornar algo o mais parecido possível com um lar.




Portugues seguindo a Nova ortografia? Parabéns
December 16, 2010 at 16:10
-_-’ Oh, doG!
December 16, 2010 at 16:15
Como sempre, embora por vcs confuso, gostei!
December 16, 2010 at 16:24
Talvez pareça estranho tudo isso, mas não é. :’) own essa eu adoro!
December 17, 2010 at 04:41
onw, que bonitinho. vou ficar amiguinhas dos meus fantasminhas no escuro :’)
December 20, 2010 at 15:39