#1
Dois anos se passaram. Estou indo embora de vez dessa cidade e não consegui dizer nem um por cento do que pretendia para ela. Acho que nunca mais nos veremos. Tanta coisa deixou de ser dita. Ela nunca saberá o que eu sinto. Não entendo como pude ser tão covarde, mas fui.
Estudamos juntos por dois anos, no começo mal notamos a existência um do outro. Nem como conhecidos poderíamos ser classificados. Nem mesmo nos cumprimentávamos. Eu, secretamente, a achava linda.
Depois de alguns meses começamos a conversar. Dentro da sala de aula. Durante os intervalos. Todos percebiam meu interesse, todos menos ela. Talvez ela também percebesse mas preferia fingir que nada acontecia. Apenas bons amigos no final das contas.
Meu desejo começou a crescer, cada vez mais se multiplicava e isso me fazia um pouco de mal. Me incomodava perceber que ela sempre estava com alguém. E sempre era o alguém errado, somente quando minhas mãos estivessem entrelaçadas com as dela é que seria a pessoa certa. Não aconteceu.
Hoje me sinto um idiota por não ter arriscado quando tive a chance. Vejo que a minha boca foi a única da cidade que não deve ter sido beijada por ela. Agora já foi, tarde demais.
Sei que nos tornamos grandes amigos. Confidentes de certa forma. Nunca pudemos namorar ou algo do tipo, mas sempre pudemos contar quase tudo um para o outro. Isso não tinha preço. Não me incomodava de não tê-la, dessa forma pelo menos acreditava que seria impossível vir a perdê-la um dia. Não se perde o que não se tem.
Me lembro de várias coisas que passamos juntos. Muitas delas ótimas. Excursões com o colégio por exemplo, em uma delas inclusive decidi que revelaria meu amor platônico. Passamos o dia perto um do outro. Ficamos abraçados o tempo todo praticamente, conversando as baboseiras de sempre. Um fazendo carinho no outro. Na hora de ir embora outra pessoa apareceu e falou que queria ficar com ela. Me senti um lixo. O sentimento que eu acreditava ser real foi deixado de lado por um “vamos ficar um pouquinho, gatinha”. Difícil acreditar. Mais difícil ainda aceitar. O caminho de volta foi triste. Só queria chegar em casa e dormir.
Houve situações em que acreditei que ela também sentia algo por mim. Talvez esteja enganado, mas prefiro acreditar que não. Já nos cruzamos em festas e bailes, tanto eu quanto ela acompanhados por outra pessoa qualquer. Um oi cínico era nosso único contato durante toda a noite. Quando olhava para trás encontrava também seu olhar me procurando. Talvez ela também sentisse que eu estava com a pessoa errada. Talvez não.
Cuidamos um do outro por um tempo – na verdade eu cuidava dela. Conversávamos sempre que acontecia algum problema em sua vida pessoal que, sou obrigado a confessar, era uma merda. Era enquanto me abraçava que chorava por causa das brigas com o imbecil do namorado. Era comigo que comentava da culpa que sentia pelas traições, mas dizia não querer mudar porque sabia que também era, nas palavras dela, chifrada. Não concordava com nada daquilo mas queria ter meu papel em sua vida. Acabei me tornando o amigo idiota. O amigo gay provavelmente.
Camuflei durante esses dois anos minha covardia atrás de um moralismo mais do que falso. Não queria tentar nada pois não achava certo ter algo com ela enquanto ela ainda estava envolvida com outra pessoa. Mentira, claro. Lógico que a queria mesmo sabendo do namorado e dos inúmeros steps. Só me cagava de medo e ficava paralisado sem saber como dizer ou o que dizer.
Não sei ao certo o que é o amor. Acredito que ninguém saiba ao certo. Em teoria o amor não deveria causar sofrimento, não o amor descrito por Camões pelo menos. Mas na prática causa. Causa muita dor. Mas mesmo sem saber o que seja acredito que o que senti por ela foi amor. Uma forma de amor pelo menos.
Entro no carro com meus pais. Logo a nossa frente está o caminhão de mudanças carregado. Saímos. Meu irmão mais novo puxa assunto, tento brincar e fingir que está tudo bem. Quero chegar logo na nova cidade, arrumar minhas coisas. Fechar a porta e dormir arrependido por não ter dito nada quando pude e me lembrando da pessoa que acredito ter amado acima de qualquer coisa nesse mundo.




EU VI G-ZUIS!
December 20, 2010 at 02:06