Oh, look at the time…. The big hand says Fuck, and the little hand says Off… Good thing there's not a second hand. I'm goin' in.

Christmassacre…

Sempre contamos histórias. Às vezes nem são histórias, contamos coisas. Reais ou não. A diferença não é muito grande. Depois de milhares de anos seguindo essa tradição, contar histórias chega a ser uma espécie de dever para nós.

Hoje, com o barulho das gotas da chuva caindo na poça que a pouco se formou me lembro de uma história ótima para o momento. Se encaixa com perfeição.

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Era véspera de natal e, como sempre acontece nessa época do ano, chovia. Era uma chuva fraca, dessas que duram a noite toda. Foi numa noite assim que tudo aconteceu.

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Voltando alguns anos antes, dez para ser mais exato, encontramos a família perfeita. Um modelo de comportamento. Quatro pessoas vivendo um sonho. O casal e seus dois filhos: o menino com seis, a menina de quatro.

O pai da família era um homem religioso. Frequentava assiduamente a igreja local e estava diretamente envolvido em vários projetos sociais/beneficentes. Todo ano, no natal, o homem ajudava com a distribuição de comida para os necessitados e moradores de rua.

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Vinte anos antes dessa noite de natal aconteceu uma enchente em um dos bairros mais afastados. Um dos membros da igreja perdeu tudo o que tinha. Sua casa estava inabitável. Dormiu por um tempo nos fundos da igreja. A prefeitura considerou sua casa como construída em uma zona de risco. Deram uma pequena indenização – nem dez por cento do que havia perdido – e o obrigaram a se mudar. A única coisa que se salvou foi uma enorme cruz de madeira. Pertencia a família há gerações.

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Naquele natal a menina tinha catorze anos completados recentemente. O cabelo preto e extremamente liso tampava parte do rosto. O pouco que não era escondido pela cabeleira estava manchado com respingos de sangue.

Vestia uma blusa preta, de um tecido leve. Estava também com um short que ficava pouco acima dos joelhos. Estava vestida para dormir. Já era tarde, tão tarde que era quase cedo. Os pés descalços deixavam marcas vermelhas escada abaixo. Havia pisado no sangue pelo jeito.

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Na sala, o homem deixava exposta uma bíblia em cima de uma mesa. Tinha o costume de ler uma passagem aleatória toda manhã ao acordar e deixava o livro aberto na página que leu. Sua mulher e os filhos também liam a mesma passagem antes do almoço. Isso aconteceu todos os dias, desde esses dez anos até a tal noite natalina.

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A igreja se prontificou a ajudar o homem que perdeu tudo na enchente. Fizeram um mutirão e ergueram – tudo financiado pela pequena indenização e com as doações arrecadadas – uma casa nova para o homem.

O líder da construção era ele, o pai da família, claro que ainda não era pai nessa época.

Em menos de dois meses a casa ficou pronta. Como símbolo de sua gratidão, o homem deu a cruz, a única coisa que havia sobrevivido à enchente, para o pai da família. Sabia que era recém casado, para proteger seu lar, ele disse para o pai da família – que deve ter pensado: que proteja meu lar melhor do que protegeu o seu.

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Após descer as escadas, a garota se viu em frente a uma mesinha com vários porta-retratos. Fotos da família desde antes de ela existis. O casal. Os dois filhos. Todos juntos. Uma família feliz.

Seus pés descalços a levavam para a cozinha, seus olhos mal piscavam, era difícil ver seu rosto, por isso não posso descrevê-la, mas uma coisa era clara: ela estava com medo.

Mas como poderia ser diferente? A imagem de seu irmão morto na cama. Apenas dois anos mais velho. A cabeça aberta, o rosto desfigurado, sangue para todos os lados. Era a primeira vez que via alguém morto, claro que a menina estava assustada.

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A bíblia que ficava na mesinha da sala era enorme e pesada. Sua capa era de couro, os escritos em dourado. Todo o acabamento feito manualmente. Havia custado uma fortuna ao pai da família, mas valeu a pena, ela era muito utilizada, é isso que importa afinal.

Um dia, pouco antes do horário do almoço, o homem pediu que sua esposa trouxesse as crianças. Os dois estavam brincando do lado de fora da casa. Ele perguntou se já tinham lido a passagem daquele dia. Disseram que não. Ele se incomodou, as crianças não estavam levando a sério a mensagem divina, disse algo parecido com “vocês precisam conhecer o peso da palavra de deus”.

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Ao chegar à cozinha, a menina viu a louça ainda molhada da ceia. Sua mãe tinha limpado toda a bagunça pouco antes de se deitar.

Abriu uma das gavetas, abriu outra, mais outra e lá estava. Pegou uma faca de cortar carne, era grande e brilhante. Suas mãos tremiam de nervosismo. Subiu as e3scadas, pegou um travesseiro em seu quarto e saiu novamente.

Parou em frente a cama dos pais, sua mãe dormia tranquila, seu pai tinha o sono pesado e roncava alto. Colocou o travesseiro em cima do rosto da mãe, apertou o máximo que pode com uma das mãos. Com a outra mão golpeou repetidas vezes fazendo a faca entrar na garganta, na bochecha, nos olhos e onde mais os ossos não impediram.

Quase não fez barulho.

∙∙∙

A mulher e os dois filhos conheciam bem o “peso das palavras de deus”. O homem batia no rosto de sua mulher com a pesada bíblia de capa de couro. As crianças eram as próximas, sempre apanhavam também, mesmo ainda sendo pequenos. A menina era a filha preferida, acabava sendo sempre deixada para o final. Isso não quer dizer que sofria menos, muito pelo contrário, depois de apanhar era levada para o quarto. O homem trancava a porta para que ninguém entrasse.

A mulher e o filho sabiam o que estava acontecendo, mas não faziam nada.

Nas primeiras vezes a menina chorou e até tentou gritar, mas apanhava quando fazia isso. Com o tempo passou a aguentar a dor em silêncio. Com os anos aprendeu a não sentir dor.

Os anos iam passando e o garoto se mostrava cada vez mais parecido com o pai, assistia os dois, escondido, às vezes.  Um dia criou coragem e decidiu fazer o mesmo. Agora os dois homens da casa violentavam aquela criança.

∙∙∙

Teve o jantar de natal. Fizeram orações. Comeram. O pai passou no quarto da menina antes de ir dormir. No natal sempre era pior, tratava-se do dia do nascimento de cristo, um dia para se celebrar. Era tanta alegria que o homem não se continha. Sempre exagerava e machucava a menina mais do que o normal.

Sua mãe tirava a mesa enquanto os dois estavam no quarto. O menino espiava excitado.

Depois de acabar, a menina se vestiu para dormir. Tentou ficar o mais confortável possível considerando toda a situação. Olhava para o teto chorando enquanto as horas se arrastavam devagar.

Um a um, foram todos dormir.

Estava cansada de tudo aquilo, não queria continuar vivendo dessa forma. Pensou em se matar. Percebeu que não tinha culpa de nada. Não precisava morrer, mas sabia que precisava fazer algo ou nunca viveria.

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Desceu as escadas em silêncio e foi em direção a sala. Passou a mesa de porta-retratos e andou mais um pouco. Acima da porta da entrada estava a grande cruz de madeira que o pai ganhou vinte anos antes. Subiu em uma cadeira e a pegou. Era pesada, quase perdeu o equilíbrio.

Carregou a cruz fazendo o caminho inverso, sua cruz era tão pesada que era arrastada pelo chão. Tomou cuidado para não fazer barulho ao subir os degraus.

Entrou no quarto do irmão, parou perto da cabeceira e o observou por alguns instantes, apenas tempo suficiente para ter certeza do que fazer. Com as duas mãos ergueu a cruz e bateu o mais forte que pode no rosto do irmão. Uma batida foi o suficiente para que morresse de vez. O sangue espirrou para todos os lados saindo de seu crânio rachado.

A menina foi até o quarto dos pais, ambos dormiam. Se batesse na mãe e o pai acordasse tudo estaria perdido, nunca conseguiria vencê-lo. Bater primeiro no pai era o ideal, talvez a mãe pudesse até ser poupada já que nunca fez nada.

Nunca fez nada. Soube desde sempre o que acontecia dentro do quarto da menina e nunca fez nada para impedir, esse era seu crime. Merecia ser punida tanto quanto o irmão e o pai.

Decidiu então que realmente mataria os dois, mas queria retribuir o favor e deixar o pai para o final, como ele sempre fez com ela.

Deixou a cruz apoiada ao pé da cama e saiu, desceu as escadas, o rosto sujo de sangue, os pés deixando pegadas vermelhas, foi até a cozinha onde pegou a faca. O resto já sabem. Quase não fez barulho nenhum.

Agora a mãe também não era mais problema.

Pegou a cruz que repousava ao pé da cama e mais uma vez a ergueu.

∙∙∙

Dizem que ela anda por aí até hoje depois de ter matado a família toda, outros dizem que o pai acordou e ninguém sobreviveu. Tanto faz, afinal, é só mais uma história de natal. Só fico feliz por, no dia em que ganhei minha casa vinte anos atrás, ter me livrado daquela cruz estúpida, pelo jeito não protegeu o lar daquela família muito mais do que protegeu o meu daquela enchente.

 

 

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5 Responses

  1. kely diogo medeiros

    Um dos melhores textos de Natal q já li! Transborda o “espírito natalino”. kkkkkkkk Sinceramente,muito bom mesmo! Valeu a pena ter lido!

    December 24, 2010 at 18:23

  2. Léw

    Ooooorra o_o Muuuito foda, sério mesmo. É tão natalino que transborda arcos-íris (:

    xD

    December 24, 2010 at 20:23

  3. Meldels que bonitinho o conto, perfeito para ler durante o natal!! Muito bom KKKKKKK

    December 25, 2010 at 17:48

  4. Di Benedetto

    Sinceramente? Achei bem mais foda que o meu: http://caveiracinza.blogspot.com/2010/12/conto-celebracao.html

    Não levo jeito pra conto de terror.

    Sobre o seu conto, apesar da narrativa não linear fica fácil acompanhar as cenas e o final é perfeito.Se eu pudesse mudava só a seguinte frase: “O casal e seus dois filhos: o menino com seis, a menina de quatro.”

    “De quatro” sugere outra coisa… que além do mais no contexto da narrativa, é SPOILER. =P

    December 26, 2010 at 13:11

  5. Carolina Lambert

    Nossa foi isso que minha casa te inspirou a escrever no Natal, ai que tristeza, mas o conto ficou bom. Bem no seu estilo, então não poderia imaginar algo diferente no natal né amorzinho.

    January 6, 2011 at 13:48

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