Oh, look at the time…. The big hand says Fuck, and the little hand says Off… Good thing there's not a second hand. I'm goin' in.

Conto de f@das…

Já não é novidade nenhuma uma princesa aprisionada em uma torre. Assim começarei mais essa história, uma linda princesa de um reino não tão distante quanto você imagina.

Presa por praticamente duas décadas em seu quarto, vivendo solitária e tendo contato praticamente inexistente com outros seres humanos. Noites em claro acompanhada unicamente pelos livros. Conseguindo pelas palavras de terceiros diferentes experiências de vida que ela mesma não teve e provavelmente nunca terá. Gritando, depois de vinte anos de um latejante sofrimento mudo, por ajuda. Implorando por um socorro que muito provavelmente nunca virá. O grito é seguido por suas – há muito tempo conhecidas – lágrimas silenciosas. As pessoas geralmente tem problemas tão grandes com o silêncio como eu ou será isso puro distúrbio mental de minha parte?

Uma curiosidade sobre essa jovem princesa é o fato de seu cativeiro ser, atualmente, em sua totalidade aberto. Não existem trancas externas. A única chave que possui sua porta está do lado de dentro e é aberta conforme a vontade da garota. Nos primeiros anos de sua vida fora de fato feita prisioneira, não podia em hipótese alguma sob nenhuma circunstância que se possa pensar sair. Com o passar dos anos as barreiras físicas foram deixando de existir. O pai louco, o velho Rei, foi aos poucos dando liberdade para a jovem garota, mas só começou a dar tal liberdade no momento que percebeu que sua filha estava tão estragada que não saberia como aproveitá-la. A prisão material não existe mais. Graças a sua criação nada comum hoje não passa de uma pessoa de vinte anos completamente enclausurada em sua própria mente.

É claro que a pobre princesinha sabe que existe algo de errado em sua vida. Óbvio que já percebeu que é diferente das outras pessoas, que os habitantes mais simples e sem cultura de seu reino são infinitamente mais felizes que ela e sua família completamente mentecapta. É fato conhecido para a garota que algo precisa ser feito. Ela precisa se libertar. Precisa fugir dessa prisão imposta por seus pais. Acontece que, diferente de uma prisão composta por muros e grades, é muito difícil fugir de sua própria cabeça. Difícil, não impossível. Basta achar a motivação correta para isso.

Alguns anos antes, quando tinha dezesseis, a princesa tentou ir embora várias vezes. No meio da noite juntava suas coisas e abria a porta do quarto. Caminhava em direção a porta principal que a levaria para o lado externo do castelo. Após andar metade do corredor, voltava. Colocava suas coisas de volta no lugar, se deitava e chorava até pegar no sono. No segundo dia conseguiu atravessar o corredor inteiro antes de ser tomada pelo pânico e correr de volta para seus aposentos. Há até quem diga que em uma certa ocasião permaneceu frente a porta principal e até conseguiu girar a chave destrancando-a. Caso continue assim talvez um dia consiga abrir a porta e ao menos vislumbre por alguns instantes o que existe do lado de fora. Talvez, mas só talvez, consiga respirar e sinta como o ar é menos carregado além daqueles tão altos muros. Não deixam de ser possibilidades.

Considerando o que acabei de dizer sobre a princesa estar a vida toda em um relacionamento exclusivo com a leitura espera-se que ela seja no mínimo uma pessoa culta. Se formos nivelar pelas pessoas medíocres nossa princesa está realmente em um nível um pouco superior, nada além do normal. Nenhum gênio. Apenas alguém com uma inteligência comum, um raciocínio relativamente rápido e uma preguiça do tamanho do universo. Agora caso seja comparada com alguém que habite o mundo das pessoas crescidas, como eu e você, ela não passa de alguém normal.

Não é nada demais se tratando de aparência também, mas essa é só minha opinião. Se bem que, como eu estou contando a história, minha opinião é o que vale, né? Ela tem os cabelos compridos e pretos. Ao fitar com mais atenção auqeles olhos de um castanho quase preto enxerga-se uma pessoa morta. Está no automático, não existe nenhum traço de esperança ou coragem naqueles olhos, apenas conformismo e tristeza. Não são muito diferentes dos meus nesse aspecto em particular.

Menininha, não mulher. Isso é o que ela é. Apesar da idade não passa de uma criancinha mimada que não faz nada por conta própria já que teve e sempre terá tudo na mão. Sofre e não vai embora. Agora depois de tanto tempo acha que pode pedir ajuda e alguém irá correndo em sua direção… infelizmente, apesar de ser completamente egoísta, está certa. Seu grito de socorro sempre será ouvido por mim. Mesmo que grite em silêncio. Mesmo que não peça por ajuda e finja estar tudo bem. Ela sabe que sempre aparecerei na hora que precisar. Talvez se eu não fosse dessa forma ela se esforçasse um pouco mais, mas não consigo. Tentei me afastar. Tentei muito me afastar mas não tem como.

O grito desesperado por ajuda foi forte mas curto. O grunhido cessou em pouco tempo. Acontece que pouco tempo é tempo mais que suficiente para eu escutar e resolver fazer alguma coisa. Pobre criatura, sei há muito tempo que não está bem, tenho consciência de que não está feliz com sua vida. Sei que as pessoas ao seu redor nunca entenderão um milésimo do que eu já entendo faz tanto tempo. Sete anos no próximo dia dezessete que a conheço e é mais do que suficiente para eu ter certeza de que ninguém além de mim pode dar o que ela precisa. O que ela precisa, não o que ela merece porque, pra falar a verdade, não merece muita coisa. Se fosse por merecimento eu deveria ignorar o pedido de ajuda e continuar com minha vida, tenho tanta coisa para fazer. Não sei explicar o que me faz ir ao seu encontro por causa de um pedido egoísta de ajuda, se fosse parar para pensar realmente o mais sensato é ficar quieto em minha casa. Agradeça a Deus ou ao Diabo, tanto faz. Não sou sensato.

Horas após escutar o clamor por ajuda, parti. Levei comigo apenas o essencial para sobreviver até nos estabilizarmos em algum lugar distante. Não estava carregando nada de minha vida até então. Rejeitei o legado de minha família e escolhi perseguir o que não decidi ainda se é um sonho ou um pesadelo. Desci vagarosamente as escadas de minha casa sabendo que estava prestes a fazer algo estúpido. Cada célula do meu corpo insistia para que eu mudasse de ideia. Acontece que eu tenho múltipla personalidade e a personalidade que controla minhas ações é completamente inconsequente. Pensando bem o problema não é múltipla personalidade. Meu problema é falta de personalidade.

Tranquei o portão depois de terminar a jornada pela longa escadaria. Olhei pela última vez aquela casa. Me lembrei dos rostos de meus pais, pessoas que nunca mais veria. Queimei o lugar onde morei grande parte de minha vida. A decisão foi tomada. Não tenho mais para onde voltar, só posso seguir em frente não importa o que aconteça. Se tudo der errado não posso fazer nada, nem mesmo lamentar. Agora só posso seguir em frente e ir até o fim do caminho que escolhi.

Me afastei o mais rápido que pude daquele fogo. Não olhei para trás. Sabia que em pouco tempo meu pai colocaria alguém para me seguir já que não estou fazendo aquilo que ele esperava de mim. Não estou vivendo o que já se tinha por certo em minha vida, deixei tudo de lado por algo que tento sem sucesso acreditar que seja amor.

Não tenho família. Não tenho dinheiro. Não tenho amigos. Não tenho força para enfrentar metade do que sabia que iria acontecer agora que resolvi ajudar. É engraçado como tudo desmorona e dá errado quando se tenta fazer a coisa certa.

A viagem é longa. Dias com medo do que poderia acontecer. Dias solitários onde quis desistir. Dias ingênuos onde acreditei que tudo acabaria bem. Fui em busca de minha princesa. Tinha decidido fazer o que fosse preciso para levá-la comigo. Vou roubá-la para mim daquela porcaria vida. Nada nem ninguém poderia me parar. Pequeno e fraco. Covarde e estúpido. Mas ela precisava de mim, ninguém pode me impedir. Ninguém.

Meu pai insatisfeito com minha partida antes de terminar meus estudos e me casar colocou todas pessoas que trabalhavam para ele atrás de mim. Não eram poucas. Ele não era ninguém de grande influência, trabalhava na área médica. Após a morte aos noventa e um anos do antigo governante, o pai da garota foi coroado. Começou velho seu reinado, já com mais de cinquenta anos e louco resolveu expandir seus territórios passando por cima de qualquer um em seu caminho. Iniciou-se assim uma guerra pessoal. Meu pai fora chamado por aquele Rei tardado para ajudar o exército. Nunca matou uma pessoa, só ajudava tratando daqueles feridos e mutilados durante o período que durou a guerra. Foi nessa época que conheci a princesa. Ela parecia entender que as ações de seu pai eram erradas mas não parecia ligar muito, demonstrava indiferença acredito. A guerra acabou e o país aumentou. Meu pai passou então a contar com um pequeno exército particular, cortesia do Rei. O que parecia desnecessário se tornou indispensável após os diversos ataques de estrangeiros que minha família sofreu, num deles perdi minha mãe inclusive. Meu pai acabou se fechando por completo depois desse incidente.

Finalmente cheguei até a prisão de onde tiraria aquela menina. Enfrentei todos que tentaram me impedir de entrar em seus aposentos. Seu pai continuou roncando e babando sem ter ideia do que estava acontecendo. Cheguei em frente a sua porta e implorei para que abrisse. Ela queria ajuda, estava ali para ajudar. Ajudar do meu jeito. Bati na porta tentando não fazer muito escândalo, não adiantou. Destruí a porta e entrei a força. Vi aquela garota assustada tentando disfarçar o choro que deve ter começado horas antes de eu chegar.

Tentarei te ajudar, mas depende de você. Te tirarei desse lugar mas acredite, o lado de fora não é lá essas coisas. Estarei com você, mas precisa salvar a si mesma.

Então percebi o quanto era grande meu sentimento por ela, maior do que eu imaginava. Ali pude ver que aquela menininha mimada e egoísta era quem eu queria do meu lado. Ela sempre seria minha. Ela nunca seria minha.
Mas acredito que minha maior descoberta naquela noite é algo de certa forma bobo e ao mesmo tempo sempre me lembrarei disso: às vezes a torre mais alta e difícil de se escapar está no térreo.

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3 Responses

  1. Bianca

    gostei :) kk

    December 30, 2010 at 18:10

  2. Rafaela

    Fofura Cainho >.< Como sempre, otima história!

    December 30, 2010 at 18:12

  3. Carolina Lambert

    Este eu gosto bastante e sabe disso, tomara que consiga o fim pra ele …

    January 6, 2011 at 13:50

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