INSÔNIA
00:00
Meia noite. Sábado. Odeio sábados. Apesar de tecnicamente já ser domingo. A noção de tempo não fica muito legal quando não se dorme há semanas. Mil e noventa e duas semanas aproximadamente. A orientação temporal fica toda bagunçada, como saber se já é outro dia se o dia nunca acaba? Todos os dias são sábados. Quartas. Segundas. Domingos. Todos os dias são dia nenhum. Não é a coisa mais fácil do mundo.
É fato conhecido para qualquer pessoa que uma hora contém exatos três mil e seissentos segundos, não é? Caso não soubesse, agora sabe. Saber isso não é nada demais, estranho mesmo é imaginar uma pessoa contando de zero até três mil e seissentos e depois checar se conseguiu manter a contagem em sincronia com o relógio. Concorda que é estranho? Agora imaginem só as possíveis reações da pessoa ao ver que contou rápido ou devagar demais e os segundos não bateram. Me diga quais possibilidades levantou? Está entre elas a hipótese da pessoa voltar a contar e tentar alcançar sucesso nesse estranho e despropositado jogo sem vencedores? Ah, pode assumir que achou esquisito! Agora faço uma última pergunta…
– Adivinhe que já fiz fez isso?
– Não sei quem fui foi…
01:11
O tempo passa mais devagar para mim. Pelo menos é o que sinto. Não sei se é parte da minha condição psicológica obviamente debilitada e completamente detonada pela minha condição física ou se é algo real. Mas o tempo não passa.
Deitado olhando para o teto pensando em nada. Com os olhos fechados esperando o sono que já se tornou um sonho. Tentando ler enquanto a cabeça dói. Procurando nomes em verde na lista de contatos do Messenger. Bebendo ou comendo, não por sede ou fome, mas por ansiedade. Escutando músicas relativamente românticas de 2008. Músicas depressivas de 1989. Músicas russas de sei lá quando. Marteladas de alguma obra non-sense de Eletroacústica. Tanto faz. O tempo não passa. O Now Playing do Media Player mostra pelo menos quatro mil músicas prontas para serem tocadas, isso sem perder tempo procurando os backups gravados em alguma mídia de dvd. Poderia escutar as quatro mil músicas inteiras e quando olhasse as horas nem dez minutos teriam se passado.
Hora de levantar, ir até a cozinha, pegar um copo, abrir a geladeira, sentir o ar gelado indo de encontro aos meus pés – nunca estudou física? frio: down; quente: up. – olhar de cima para baixo procurando algo interessante apesar de saber que nunca muda, a escolhida é sempre a garrafa de Coca obrigatoriamente presente. Encher o copo até a borda, fechar a garrafa e guardá-la na geladeira. Voltar até o quarto. Beber a Coca. Sentir o organismo se enchendo desse tão gostoso veneno. Menos de trinta segundos se passaram.
O tempo nunca passa. Anos insistindo em olhar as horas em um relógio parado. Finalizarei com mais uma pergunta: Quem está quebrado, o relógio ou eu?
02:22
Quem vive de passado é museu. Será? Como saber se o passado já passou quando, como já disse, não se tem noção do tempo ao seu redor? Passado, presente, futuro… qual a diferença?
Sempre chega a hora de lembrar. Lembrar do dia. Lembrar de conversas. Lembrar dos erros. Lembrar dos problemas. Lembrar do desejo constante de ser apenas mais uma pessoa medíocre como você e tantos outros milhões. Lembrar do que não aconteceu ainda e nem venha acontecer talvez. Lembrar apenas…
Em algum lugar da memória se encontra uma das muitas merdas de Tolstoy, uma afirmação dizendo algo sobre a paciência e o TEMPO serem os dois maiores guerreiros. Qual o sentido disso? Como assim o tempo é o maior guerreiro? Se o tempo é um soldado ou qualquer coisa do tipo, seu mais sublime estratagema é tentar me matar de tédio. E não funcionou ainda apesar de tudo. Não querendo passar sobre a opnião de incontáveis críticos literários e um sem-número de pessoas com mau gosto, mas… É SIMPLESMENTE ABSURDA ESSA AFIRMAÇÃO!!! Muito mais sentido tem o diabo fazendo piadas das crenças de Ivan Karamazov em suas alucinações. O que mais seriam essas noites em claro além de uma piada? Piada de muito mau gosto por sinal. Não tem nem como comparar um lixo desses com Fyodr, o amigão da vizinhança, tem?
Não sei porquê, mas sinto que tem algo errado nessa alcunha de amigão da vizinhança. Deixe-me tentar buscar na memória quem era chamado dessa forma, não vou fazer outra coisa mesmo…
(tipo dormir)
03:33
É inevitável que chegue a hora de desejar. Diretamente ligada a hora anterior. Derivada da memória. Após lembrar de alguém é que, normalmente, nasce o desejo. De tantos alguéns sempre é o mesmo rosto – e todo resto – que me vem ao pensamento. Sempre a mesma pessoa.
Lembro do aroma de seu corpo. Um cheiro que, de alguma forma, invade minha boca e se torna gosto. O gosto que se torna textura. O tato. O carinho. A intensidade. O amor. Lembro e desejo que tudo aconteça novamente.
And again… And again… And again… And again… Kinosagi said.
Sinto o sangue fervendo e pulsando pelo meu corpo como se fosse explodir artérias afora enquanto desejo mais uma vez experimentar o sabor daquela boca. A unha rasgando fundo a pele por onde passa. Os dentes deixando suas marcas pelo corpo. A respiração forte em meu ouvido. A mão agarrando com toda força como se implorasse que a segurasse de volta e não soltasse nunca. O suspiro final. O abraço firme e suave enquanto a respiração e os batimentos cardíacos se acalmam. A troca de olhares por horas e horas enquanto conversamos sobre alguma importantíssima trivialidade.
Mesmo que existam muitos aspectos de minha vida que estejam meio turbulentos no momento, existem coisas que fazem tudo valer a pena. Existe alguém que traz sentido à vida.
Existe desejo.
Existe amor.
Acima de tudo, existe a certeza de que sempre terei esse amor em minha vida independente de como todo o resto possa estar fodido.
04:44
Confesso que, mesmo existindo alguém que me conforte, os problemas ainda são reais. Em um determinado momento vem o desespero. É inevitável. É algo tão maquinal quanto respirar. É involuntário. Simplesmente acontece.
Hora de pensar em como praticamente tudo está dando errado. Em como alguém que se considera tão genial não consegue pensar em alguma solução para todo esse incomodo. É aquela horinha desprezível em que a insegurança vem a tona com força total.
Insegurança em todos os sentidos, em todas as cores – sentimentos, assim como as músicas, possuem cores, ok? Ok! Outra hora falo sobre isso… – e em todas as formas possíveis. Péssimo resultado sai quando uma insegurança meio que infantil se mistura com um cérebro que pensa um pouquinho – pouquinho é ironia. Cordialmente esclarecendo – mais rápido do que os demais, incluindo o da sua mãe, aquela velha gorda.
Partindo desse composto surgem inúmeras e absurdas possibilidades sobre tudo. Conspirações que deixariam os doidos que falam que o homem não pisou na lua parecendo pessoas sensatas. De tantas loucuras sei que minha morte será por afogamento, assim como sei que você, por ignorância e de maneira patética, causará sua própria morte. E será logo, depois não diga que não avisei! Essas duas asserções são fatos comprovados por minha lógica semidivina, nem tente imaginar as afirmações que são apenas suposições…
Essa é a pior hora de todas as noites, e sempre está presente. Muitas vezes se repete incansavelmente dentro duma mesma noite.
05:55
Tem a hora de acreditar nas palavras que diziam “meu filho, você será um grande escritor!” – Não. Não foi minha mãe que disse isso. – e tentar escrever alguma coisa.
Uma tentativa de fazer algo útil com esse tempo acordado que não servirá para porcaria nenhuma. Tentativa que se mostra fracassada enquanto fico mais de uma hora encarando a página em branco no monitor na minha frente. É algo que é meio chato essa coisa de não escrever, ainda mais quando tenta se levar a sério que talvez venha a ser um escritor em algum momento.
E não estou com um pingo de paciência para o velho estereótipo do escritor que não consegue escrever. Pro inferno essas mentes bloqueadas que buscam alguma baboseira. Existem trocentos livros, filmes, seriados que falam sobre algum maldito escritor que não escreve. Então não desperdiçarei meu tempo nada precioso com essas palhaçadas.
Algumas vezes sai algo, algumas vezes não. Dependendo do dia é só seguir a filosofia sanitária do “faz força que sai” que tem como encher uma página ou duas de palavras sem utilidade que serão admiradas por alguma pessoa abobada.
Sorte minha que pessoas abobadas nunca faltarão. Pensando nisso talvez se torne real essa coisa de ser um grande escritor. Mérito nenhum se for assim, mas paciência.
Ou talvez o adjetivo precedendo escritor se dê pela minha altura. Vai saber. Um grande escritor, escreve mal que até dói a cabeça, mas é grande pra caramba, parece até o Frankenstein, ó.
06:66 Opa, quis dizer: 06:06
Já é de manhã. Grande coisa. Não tenho compromisso nenhum marcado. A única coisa agendada é a claridade que vai começar a entrar pela janela e terminar de estragar meu humor já inexistente.
Mais uma noite se passou e nada foi feito. Como vou ganhar um Nobel dessa maneira? Só se for o Nobel do ócio ou de projetos inacabados.
Essa rotina cansa. Cansa fisicamente. Cansa mentalmente. Nunca me imaginei dizendo isso, cansa emocionalmente.
Não existe solução para essas noites em claro que serão minhas companheiras fiéis durante a vida toda. Já desisti de tentar. Resta esperar pelo dia em que terei alguém me abraçando enquanto descanço todas as noites. Logo chega esse momento. Logo estarei curado. Até lá continuo bem acordado. Enquanto a hora de sonhar não fizer parte de minha vida irei apenas pensando. Já é mais do que a grande maioria das pessoas faz.
Acho que é isso.
That’s all folks!
Bom dia, boa tarde, boa noite…
Durma bem e tenha bons sonhos.



