HERÓIS
“E o herói:
Minha heroína,
quando você caiu nos braços de Morfeu
eu caí na morfina…
Quer tomar uma Coca ainda?”
Histórias sobre heróis são muito contadas mas, normalmente, falam principalmente sobre os feitos heróicos dos mesmos. Mas muitas vezes esquecem-se os problemas dessas criaturas tão iconicas.
No momento em que ocorreram esses fatos os tais heróis estavam extremamente fora de moda mas, mais do que nunca, eram mais do que necessários. Qualquer coisa que se assemelhasse a um tipo qualquer de heroísmo seria bem vinda de volta naqueles dias.
O céu era de um tom cinza avermelhado, algo difícil de se explicar em palavras, difícil de ser descrito mesmo em imagens, só estando lá para realmente entender. Foi em um dia assim, com o céu estranho, em que aquele que antes era um herói entrou na mais profunda depressão.
Sua visão de raio X não servia nem para espiar por baixo das roupas das garotas que passavam, se surgisse uma emergência em que fosse necessária a visão de raios X, tudo estaria perdido…
Voar também estava fora de questão, o máximo que conseguia era dar uns pulos em alturas medianas como qualquer criança fazendo macaquices seria capaz. Devido ao sentimento de desânimo causado pela depressão, para sorte de nosso herói, nem passara por sua cabeça saltar de um prédio e tentar voar, caso esta ideia tivesse sido colocada em prática os jornais do dia seguinte estampariam, não na primeira página, a notícia do ex-herói que virou uma mancha no concreto.
A super velocidade provavelmente desapareceu junto com os outros poderes, mas ele não teve vontade o suficiente para tentar correr. Quanto a super força nem tem o que ser dito, por sorte, não é preciso de muita força para ficar deitado o dia inteiro olhando para o teto. Para deixar tudo ainda pior o uniforme tinha uma mancha rosa por causa do alvejante e um furo na sola do sapato que fez seus pés se enxarcarem por causa da chuva.
Entrou em casa e nem se preocupou em limpar os pés, foi andando deixando um rastro de lama por onde passava. Foi tirando as roupas e jogando no chão, mais tarde amontoando tudo no canto com os pés, colocou uma bermuda velha e uma camiseta desbotada. Bebeu um copo de suco com pouco açúcar, fez uma careta, e se deitou encarando o teto enquanto as horas passavam lentamente.
Não conseguia dormir mas estava longe de estar acordado.
Assim passaram-se os dias. Olhando para o teto e, eventualmente, se alimentando com alguma bobagem no meio da madrugada. O tempo já não fazia mais sentido. Talvez várias semanas tenham passado. Passado, presente ou futuro. Nada disso significava mais nada, só existia o agora e o não-agora, além disso, só era clara a noção de que o não –agora era muito mais agradável do que o agora.
No meio de uma tarde (talvez no meio de uma noite) um dos dispositivos de comunicação usado entre os membros da liga da qual este herói fazia parte (um aparelhinho pequeno que fazia uns sons estranhos que vinha na caixa junto com o uniforme, o manual do super-herói e uma cartela de aspirinas) começou a tocar. Conversou com a pessoa que o chamara, mas por pouco tempo e contra a vontade. A solução – ou o primeiro passo para uma solução – havia se apresentado, o que um herói decadente e desesperado precisa é de uma boa heroína para ajudá-lo…
Decidiram encontrar-se algum tempo depois para conversarem, a heroína tinha o propósito de melhorar o ânimo do herói.
Na impossibilidade de voar ou se teletransportar para o local onde combinaram o encontro, o herói resolveu pegar um ônibus. Olhava para o nada pela janela do ônibus enquanto as gotas da chuva batiam no vidro e escorriam. Desceu do ônibus e olhou ao redor procurando pela garota sentindo a chuva caindo em sua cabeça. Avistou do outro lado da rua a menina segurando um guarda-chuvas preto enorme para seu pouco tamanho, maior do que ela mesma. Ela sorriu, cruzou a rua e disse oi. Andaram pela rua dividindo o guarda-chuvas e mal conversando, nenhum deles sabia o que falar, mas por algum motivo o silêncio não era desagradável. Em alguns momentos a garota levava umas joelhadas na bunda enquanto andavam devido ao pouco espaço embaixo do guarda-chuvas para os dois juntos. Os dois iam em direção a base da garota, um lugar distante, uma espécie de fortaleza da solidão, tipo a do Super-man, porém mais solitária e isolada do que qualquer instalaçãozinha no meio do Ártico mesmo estando no meio da cidade. Chegaram ao local, subiram por uma plataforma que se parecia com uma escada mas era um portal para outra dimensão. Ficaram juntos por algumas horas conversando sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo. A garota preparou o almoço enquanto ele estava sentado, mesmo sem a visão de raio X, ele não conseguia tirar os olhos dela, tão linda ao fazer algo tão simples como cozinhar. Era estranho imaginar que alguns tem tanto brilho próprio ao passo que outros só existem por falta de escolha, estão ali (sobre)vivendo e pronto, isso é tudo. Mesmo sem fome ele comeu junto com ela, mas bem pouco, quase nada. Bebeu também um copo de suco que desceu muito bem mesmo não sendo uma coca (o sindicato dos super-heróis não pagava o salário dos heróis que abandonavam o ofício sem aviso prévio ou justificativa, por isso comprar refrigerante era inviável e os sucos instantâneos eram a única opção).
Depois de comerem ficaram em uma área da base reservada ao descanso e, em algumas noites, servia até mesmo para dormir. Lá ficaram sentados e, sem nem perceberem quando, ela o estava abraçando como se segurasse uma criança. De todas as promessas de salvação a heroína era a mais gostosa de todas, mas em algum tempo se mostrou tão ineficaz quanto as demais alternativas. Durante o tempo em que estiveram juntos se beijaram algumas vezes; mesmo não sendo namorados ou qualquer outro título que se dê para um casal, havia – e ainda há, onde quer que estejam – um carinho muito grande entre os dois. Apesar de todo o carinho, não fizeram nada a mais do que os beijos, o que por um lado deve ter sido uma grande frustração sexual, por outro lado foi bom. Não terem feito nada significava que o desejo não iria acabar tão cedo, não acabaria nunca, mesmo que distantes iriam querer um ao outro como nos momentos em que estiveram juntos, talvez o desejo tenha até aumentado, quem sabe? O importante é que – seja por medo ou por um resquício de bom caráter perdido na personalidade desse tão problemático herói – não fizeram nada.
Chegaram perto de começar algo, ele ergueu a blusa de nossa heroína e admirou e acariciou aqueles seios firmes porém macios, perfeitos como nada mais no mundo foi, é ou será. Este impulso foi cortado talvez por ambos saberem que não estava tudo bem (nada bem na verdade) e fazer aquilo seria um erro. Pararam e só ficaram perto um do outro sem dizer nada. A vontade de voltarem ao que estavam fazendo era enorme, provavelmente teriam retomado os beijos e os carinhos não fosse o súbito som vindo dos dispositivos de comunicação dos dois ao mesmo tempo. Receberam uma mensagem com o texto informando uma ameaça ao bem estar de muita gente, uma catástrofe que só os dois poderiam resolver, mas cada um teria que seguir seu próprio rumo. Decidiram que era o certo a se fazer mesmo sendo desconfortável. Cada um foi para uma janela da sala onde estavam. Contemplaram o abismo abaixo e resolveram que não podia mais ser adiado, deviam pular. A garota saltou e seguiu seu caminho em direção a sua parte da missão de salvamento do mundo. Ele a viu se distanciando e indo embora.
Pulou… há boatos de que o dia foi salvo por nosso herói, outros dizem que não foi bem isso o que aconteceu, alguns até mesmo dizem que não existe salvação. Difícil saber ao certo.





GOSTEI, GOSTEI, GOSTEI…
OBS: PQ A COCA-COLA É TEMA RECORRENTE EM SEUS TEXTOS?
September 8, 2011 at 11:10