Oh, look at the time…. The big hand says Fuck, and the little hand says Off… Good thing there's not a second hand. I'm goin' in.

Suicide Store(y) – Um conto de Natal

Está ficando tarde. Acho que hoje não irá aparecer nenhum cliente aqui na loja. É véspera de natal, já são quase onze horas, todos devem estar com suas famílias ou amigos se preparando para a ceia ou seja lá o que tiverem planejado.

Todas as outras lojas aqui do shopping já fecharam. Até a praça de alimentação. Ano passado tive clientes inesperados na última hora, mas não era tão tarde quanto é agora.

Com sorte talvez apareça alguém. Um cliente no natal talvez mostre o quanto me importo com esse emprego e eu receba um aumento, não seria nada mal um aumento. Eu poderia comprar um computador melhor, um notebook de preferência, mas com placa de vídeo, sai mais caro mas vale a pena. Um notebook me ajudaria nas horas de ócio aqui da loja, não é todo dia que aparece alguém, na falta de outra coisa para matar o jeito é matar o tempo com a internet do celular, mas cansa depois de um pouco.

Estou preocupado de não ter como ir embora hoje depois de fechar a loja, tem um ponto de táxi quase em frente a entrada lateral do shopping mas não sei se terá alguém de plantão tão tarde. Ir embora a pé de madrugada é pedir para ser assaltado por algum viciado em crack. Dormir aqui não é uma opção, acredito que não exista ninguém melhor para esse meu serviço, mas passar a noite é contra as regras, melhor não discutir.

Espere um pouco… o que temos aqui?!

O monitor está piscando, alguém está no elevador. O que poucas pessoas sabem é que aqui da loja tenho acesso as câmeras de segurança. Todas. Isso ajuda a ver que tipo de cliente está por vir. No momento é um sujeitinho esquisito, provavelmente bêbado. Ele é tão alto quanto eu, mas bem mais gordo. O abominável homem das neves precisa dos meus serviços.

A porta da frente se abre sozinha e o homem entra, mas pára no segundo passo. Talvez tenha se arrependido ao me ver: uma pessoa com cara de zumbi, o cabelo sem cortar e muito menos pentear, inteiro de preto, debruçado no balcão e, para piorar tudo, com uma touquinha de papai noel. Não é o tipo de figura que inspira confiança, creio eu. Mas talvez o desespero deste gordo seja maior do que o bom senso, pois ele continuou se aproximando após a pausa inicial e, meio sem graça, me mostrou o cartão da loja que é enviado por correio, única forma de entrar aqui já que ninguém sabe o endereço.

Talvez soe estranho eu dizer que ninguém conhece o endereço daqui, uma vez que estamos em um dos shoppings mais movimentados da cidade. Não vou dizer qual é o shopping, claro, nem mesmo o nome da cidade eu irei dizer. Não precisamos de muita publicidade, quem realmente precisa e tem dinheiro suficiente para bancar sempre irá chegar até aqui.

O cartão além das coordenadas da loja, possui a combinação de botões que devem ser pressionados para que o elevador traga o cliente até aqui, caso não saiba a senha a pessoa somente terá acesso ao último andar oficial, mas nossa loja está acima disso. Literalmente. O úlimo andar inteiro faz parte da loja, custaria uma fortuna alugar um espaço desse tamanho se o prédio todo do shopping já não pertencesse ao dono aqui da loja.

Não sei a data exata, mas a loja foi aberta há mais de vinte anos, dos quais dez eu fiz parte, comecei aqui com quinze e não saí mais. Antes disso não sei quem trabalhava ou onde eram as instalações físicas, mas com certeza já lucrava muito.

Temos uma média de 190 clientes por ano segundo nossos registros, o que soma 3.800 satisfeitos consumidores até agora. É um prazer atender tantas solicitações assim, além da enorme quantia de dinheiro, há uma grande satisfação em ajudar a resolver os problemas de tantas pessoas.

Aqui em minha frente está mais uma pessoa que irá fazer uso de nossos serviços. Caso não fique tudo como esperava, o dinheiro do pagamento é devolvido na íntegra. Mais de três mil pessoas e ninguém nunca reclamou. Acho que não vai ser hoje que terei esse problema.

O gordo me conta um pouco de sua vida em uma conversa, essa é a parte mais chata, ouvir as ladainhas do freguês. Parece que a esposa do gordo o traiu pouco mais de um mês atrás, bem feito, ele merece coisa pior só por ter esse mau cheiro insuportável. Ele raclama mais um tempo e me pergunta se sou capaz de ajudá-lo. Essa pergunta me incomoda muito, mas finjo que está tudo bem. Pergunto como ele irá pagar. Vai transferir da conta da empresa em que trabalha para a conta da loja. Não sei direito o mecanismo, mas ao transferir dinheiro on-line aqui, a conta de destino fica irrastreável, o que é muito útil com pessoas tipo esse gordo que irá obviamente roubar o patrão.

Ninguém vai saber para onde o dinheiro foi. Preparo tudo para a transferência, só falta combinar o valor. A tarifa básica é de 35.000, o que dá facilmente 20.000 de lucro considerando os gastos todos.

O gordo volta a falar, diz que tem um seguro de vida e os beneficiários são a mãe e a irmã. Ele não possui bens móveis ou imóveis, portanto não deixará nada para a esposa vagabunda. Para que a perícia aprove a cobertura do seguro tudo tem que parecer um acidente, seguradoras não dão dinheiro para as famílias de suicidas. Já que tudo vai precisar ser mascarado e o corpo precisa ser encontrado, o valor é mais alto, o dobro considerando tamanho risco.

A transferência do dinheiro é feita na hora, a empresa felizmente tem saldo suficiente para cobrir o valor. Peço para o gordo se sentar em uma cadeira em uma das salas do fundo da loja, vale mencionar que uma sala não tem acesso a outra e todas são acusticamente isoladas. Mas isso tudo é desnecessário, já que só é permitida a entrada de um cliente de cada vez.

A cadeira é confortável e tem fivelas para prender a pessoa que estiver sentada. As tiras são de couro, mas acolchoadas, então prendem qualquer um sem machucar e – o mais importante – sem deixar marcas que denunciem que a pessoa estava amarrada antes de morrer.

Aviso que não irei parar depois que começar e pergunto se realmente devo prosseguir. A resposta é afirmativa. Ele parece seguro, decidido. Todos ficam assim antes de começar, mas mudam. Pena que aí já é tarde. Nos dez anos em que estive aqui aprendi várias coisas, mas a principal é que os mais ou menos dois mil que eu atendi pessoalmente, todos sem exceção, se arrependeram no final das contas.

Não importa o quanto a pessoa esteja deprimida, e já vi casos que assustariam qualquer um (hoje já acostumei), na hora em que vão morrer todos ficam com medo e percebem o quanto são ridículos por pensarem em suicídio.

Não sei a impressão que você está tendo nesse momento, mas não sou um assassino (apesar de ter matado muita gente). Eu estou dando uma assistência final para algumas das muitas pessoas que querem morrer. Milhões de pessoas cogitam suicídio diariamente, alguns seguem em frente, outros não. Existem aqueles que tentam e fracassam, os piores tipos ao meu ver. Mas alguns, poucos considerando a quantidade de pessoas querendo morrer, tem acesso à loja mesmo tendo de desembolsar quantias altas de dinheiro. O que vendemos não é um simples suicídio, é uma forma de arte. São mortes das formas mais estranhas e únicas possíveis, um atendimento exclusivo e com o maior cuidado e atenção. O tratamento do corpo após a morte também é responsabilidade nossa, enviamos para a família, sumimos com os restos mortais, moemos e fazemos hamburguer. O que o cliente desejar é feito após o pagamento do serviço. Até mesmo as cartas de suicídio nós redigimos caso necessário, em alguns casos até notas para o obituário. A loja não faz nada além de realizar sonhos de pessoas necessitadas. Pessoas que atingem um nível de desespero tão grande quanto este cara amarrado aqui na minha frente. Deveríamos ganhar o maldito prêmio nobel da paz.

Ele treme enquanto o prendo à cadeira, seu corpo trai a tentativa de parecer corajoso e decidido, ele não consegue disfarçar o medo. O suor aumenta, consequentemente aumenta o mau cheiro também. Em uma proporção inversa, minha paciência diminui. Agora é mais do que tarde para mudar de ideia. Mesmo que o medo faça com que o amor à vida floresça em meio à essas banhas, nada no mundo me faria parar, afinal de contas, é assim que ganho a vida.

No armário escolho uma dentre as diversas lâminas, um canivete, é o tamanho ideal para simular um assalto em uma noite de natal, o tipo de arma que um viciado usaria para roubar sua vítima. Coloco luvas e visto um avental de plástico, não quero sangue espirrado nas minhas roupas. Dou uma facada na barriga do gordo e ouço seus gritos, neste momento me dou conta de que seria melhor ter amordaçado o sujeito antes de começar. Anos de prática e sempre aprendemos algo novo, c’est la vie. Espero alguns instantes, deixo a ferida sangrar por um tempo, dirão que o ferimento ocorreu antes da morte, exatamente o que preciso para que tudo corra bem, e sempre dá tudo certo no fim das contas. O sangue já enxarcou grande parte de suas roupas, hora de seguir em frente, inclino a cadeira um pouco para trás e coloco uma toalha estendida sobre o rosto do gordo; vou até a sala ao lado e ligo uma mangueira à torneira. Hora de dar adeus a vida.

Deixo a água cair sobre a toalha por cerca de meia hora, ele não aguentou dez minutos. No começo se debateu e tentou sem sucesso gritar ou falar algo. Este breve momento em que a vida acaba e o corpo se torna nada mais que um recipiente vazio é incrível. É algo recompensador por si só, vale mais do que o salário que recebo por meu trabalho.
Procuro nos bolsos do pobre senhor vítima de um assaltante e acho o que eu mais queria, chaves de um carro. Não vou precisar me preocupar mais com o táxi. O tamanho do corpo é algo que eu devia ter levado em consideração antes. Não tenho forças pra levantar nem metade do peso desse sujeito. Em uma das salas da loja pego uma cadeira de rodas, já me ajudou outras vezes e será útil novamente. Solto as correias que prendem o homem a cadeira e com muito esforço o arrasto para a cadeira de rodas, não consegui deixá-lo sentado corretamente, mas o importante é que vou conseguir movê-lo dessa forma. Desço no elevador, sozinho como sempre. Quando desce deste andar, o elevador não para em nenhum outro piso. Nunca tive o problema de me sentir espremido com outras pessoas, o que é ótimo já que sou meio claustrofóbico.

No estacionamento vejo dois únicos carros, um é o velho veículo do segurança noturno, já cansei de ver este carro por aqui. Logicamente o outro é o carro que eu procuro. Aperto o botão da chave e as luzes do carro piscam e ele se destranca. Sinto um alívio ao confirmar minhas suspeitas de que aquele é o veículo que me levará para casa daqui a pouco. Abro a porta de trás do carro e empurro o gordo para dentro. Claro que não foi nada fácil fazer isso sozinho, mas pedir ajuda do segurança não parecia algo muito esperto a ser feito. Dirijo por cerca de dez minutos. Estaciono perto de uma ponte e jogo o corpo no rio. Dirijo até faltar apenas umas duas quadras para a minha casa. Paro o carro em frente a casa onde moram uns manos metidos a bandidos, acham que mandam na vizinhança por venderem drogas pra criancinhas na porta de escolas. Idiotas. Deixo a porta escancarada e aperto o botão para trancar. O alarme imediatamente dispara por causa da porta aberta.

Enquanto caminho o resto do percurso para minha casa pego o celular e ligo para a polícia, digo que aqueles vagabundos estão causando problemas novamente. A polícia muito provavelmente vai vir verificar o que está havendo, encontrarão um carro roubado, caso entrem na casa acharão drogas e armas. Se eu der sorte algum deles irá acordar com o alarme e irá ver o que está se passando, vai entrar no carro e tentar desligar o alarme, deixando para trás impressões digitais que provem que foram eles quem roubaram o carro. No dia seguinte quando encontrarem o gordo morto irão prendê-los como suspeitos pelo assassinato. Com certeza ao menos um canivete semelhante ao que eu usei eles tem dentro daquela casa. Vão concluir que foram roubar o homem, deram uma facada e ele caiu ou foi jogado no rio. Talvez papai noel reconheça meu bom comportamento durante o ano e me presenteie com um tiroteio sem sobreviventes entre os policiais e os traficantes que moram ali, isso sim seria um ótimo presente.

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2 Responses

  1. kely medeiros

    ………………………………….. estou meio q sem palavras……………………………… muito bem escrito……………………………………instigante………….. bom de ler…………………………..talvez não muito recomendável pra pessoas mais frágeis………………………….. muito…………………………….. interessante…….. gostei…………………………… mas ainda sonho com uma temática mais feliz.

    January 14, 2012 at 14:05

    • Sem sentido seu comentário! Foi escrito por uma pessoa frágil…

      January 14, 2012 at 18:20

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